A âncora

Estive em São Lourenço no fim de semana. Mais uma vez!

Aliás, preciso corrigir o tempo verbal: não estive, sempre estou em São Lourenço. Mesmo quando não vou lá.

É lá que busco conforto toda vez que a vida pesa por aqui. E se não posso ir, meu espírito vai… Foge para um refúgio imaginário que posso alcançar de onde quer que esteja, pela estrada do sentimento.

É assim desde que visitei a cidade pela primeira vez, há mais de 20 anos. Quantos retornos!

Não tenho parentes nem amigos que moram em São Lourenço e muita gente me pergunta, então, por que gosto tanto dessa cidade?

Por causa de um céu azul intenso, luminoso, que clareia a alma.

Do sol brando bem cedinho, das noites de inverno frias e agradáveis.

Das montanhas ao alcance dos olhos, verde sincero à luz das manhãs, penumbra acolhedora nos fins de tarde.

Por causa do Parque das Águas, com o Balneário e as curvas da Fonte Vichy, à beira do lago, cercada de flores. Trilhas arborizadas, miquinhos que os turistas alimentam com bananas do café do hotel, o Pau-Brasil imponente, aquele romantismo dos pedalinhos com a cidade ao fundo. De vez em quando, aparece um pintor retratando a paisagem. E tem sempre uma artesã por ali, bordando à sombra das árvores. Ouço o saxofonista que tocava no sábado de manhã.  

Adoro a estação ferroviária antiga e charmosa onde, nos fins de semana, a nostalgia embarca na Maria Fumaça para uma viagem até Soledade de Minas, a cidade vizinha. Dez quilômetros para esquecer a pressa. O apito atravessa o tempo e alguém ainda acena na porta de casa.

Passeios de charrete, contemplativos, como devia ser a vida; bancos ao sol pra gente se sentar e olhar, olhar, olhar…

O comércio vai do antigo armarinho às malharias e lojas de marcas. E na feirinha de artesanato, o vai e volta dos turistas carregados de sacolas e tentações.

Mesa farta. Comida boa, sorveteria de muitos sabores, uma variedade de doces e queijos, café com bolo, torradas e geleia, no meio da tarde!

Muitas razões e ainda não bastantes para explicar porque gosto tanto de São Lourenço.

Talvez seja isso: as cidades são seres múltiplos, me disse um amigo. Têm facetas que agradam mais a uns e menos a outros. E gostamos ou deixamos de gostar conforme a relação que estabelecemos com elas.  É questão de afinidade, de sintonia, ressonância. Privilégio encontrar um lugar assim e perto de casa, a 390 quilômetros pela Fernão Dias, entre os cafezais do Sul de Minas.

Lembro-me, então, da entrevista de um imigrante europeu cuja nacionalidade já nem sei mais. Quando ele decidiu se mudar para o Brasil, a mãe, que já havia morado aqui, recomendou: joga tua âncora em algum lugar e escolhe Minas, porque Minas é um bom lugar pra se viver.

Não precisei escolher. Nasci em Minas! E a âncora está em São Lourenço. Se você for visitar, talvez possa me entender.

Soraia Vasconcelos

Soraia Vasconcelos

Jornalista e escritora

10 comentários em “A âncora

  • 7 de junho de 2017 em 12:47
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    Obrigado por retratar nossa querida São Lourenço de maneira tão positiva. Seja sempre muito bem vinda!

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    • Soraia Vasconcelos
      7 de junho de 2017 em 18:59
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      Muito obrigada, Rogério! Espero mesmo retornar muitas e muitas vezes a São Lourenço. Um abraço

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  • 7 de junho de 2017 em 14:35
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    Obrigada pelo texto! Minha cidade é linda mesmo!❤

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    • Soraia Vasconcelos
      7 de junho de 2017 em 19:00
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      Obrigada, Ana Paula! Um abraço pra você.

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  • 7 de junho de 2017 em 15:44
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    Que lindo texto e tão fiel ao que sentimos. Sou carioca e também há mais de vinte anos conheci São Lourenço, cada vez mais amo essa cidade. O seu relato descreveu exatamente o que sinto. Parabéns!

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    • Soraia Vasconcelos
      7 de junho de 2017 em 19:01
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      Obrigada, Vera! Fico feliz em expressar um sentimento que também é seu. Um grande abraço.

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  • 7 de junho de 2017 em 17:57
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    Acabei de me mudar de lá devido ao adiantamentor da minhá idade! Estou perto dos filhos e netos mas meu coração ficou em São Lourenço! Foram 12 anos calmos e apesar das perdas na familia sempre contei com bons amigos! Se DEUS permitir irei a passeio!

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    • Soraia Vasconcelos
      10 de junho de 2017 em 10:00
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      Lá Silvia! Espero que fique bem junto aos seus e que possa voltar a São Lourenço com saúde e alegria. Um grande abraço.

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  • 8 de junho de 2017 em 21:42
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    Obrigada!!!
    Sou nascida em São Lourenço.
    Por isso tudo que voltei pra cá depois de 13 anos de SP…
    Muita paz, felicidade, verde, água e amor por aqui… ❤

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    • Soraia Vasconcelos
      9 de junho de 2017 em 13:58
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      Obrigada pela mensagem, Ana Paula. Que bom que está de volta! Felicidades!

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