A ascensão das moradias no centro de São Paulo

Em entrevista à revista Bares & Restaurantes, o chef Olivier Anquier falou da sua obstinação em ver o centro das cidades brasileiras frequentados por todas as classes sociais, como ocorre nas cidades mais atraentes ao turismo mundial, como Paris, Nova York, Milão ou Barcelona. Por que há, aqui, tanta separação de classes?, indaga ele.

Para mostrar que é possível se romper com o bloqueio mental em relação ao centro, em 2006 resolveu morar na Praça da República, onde montou um bistrô e uma loja de pães, a Mundo Pão do Olivier. Ele diz que, enquanto as boutiques de pães situadas nos bairros paulistanos de alta renda vendem dez ou vinte croissants por dia, na loja da Praça da República vende, também diariamente, mais de mil croissants.

Eis um trecho da entrevista.

Como você avalia a perda da função habitacional no centro de São Paulo, a partir dos anos 1960?

Isso não aconteceu só em São Paulo. Aconteceu em todas as capitais do mundo. Os centros das cidades eram o lugar do poder econômico, social e político, o lugar da elite. Mas, efetivamente, no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, teve o surgimento dos bairros novos, de moradia e negócios. Em São Paulo, foi a região da Paulista, que tirou do centro toda a vida empresarial. Essas residências foram para os Jardins, Moema e outros. Vai até os anos 1990, com Alphaville e tudo isso. Esvaziou-se o centro daqui, como esvaziaram-se o centro de Paris, de Milão, de Barcelona. No Brasil, foi muito mais acentuado, não pela quantidade, mas porque a elite econômica, social e política, o topo da pirâmide, era uma imensa minoria, muitíssimo abastada, lá em cima. Depois, do topo da pirâmide, descia-se muito na cadeia social, porque não tinha classe média. Nas outras capitais do mundo, existia uma classe média forte, que ocupou os lugares das áreas centrais que ficaram vazios. Por isso, o centro de São Paulo ficou muito mais ressentido; a consequência da decadência foi muito maior.

Em 2006 você decidiu morar na Praça da República, no hipercentro paulistano. Como se deu isso?

Não tinha mais ninguém do topo da pirâmide morando no centro. Isso porque o Brasil não tinha, quando aconteceu o esvaziamento do centro, dos anos 1960 em diante, classe média suficiente para poder aproveitar esses apartamentos de luxo, liberados pela elite. Poderia até alugar, dando continuação à vida residencial do centro, que foi o que aconteceu em Paris, em Barcelona, em Milão. Quando cheguei no Edifício Esther, há onze anos, muito poucos prédios dessa região do centro tinham uma função residencial ainda de qualidade. Os únicos com um lado residencial ainda de qualidade eram o Edifício São Luiz, o Louvre, o São Thomaz, que é aquele grandão, meio clássico, em frente ao Edifício Itália. Então, só tinha isso de alguma residência nesses prédios. Antes eram habitados pela nata. Quando cheguei à Praça da República, tinha, no edifício São Thomas, oito apartamentos vazios, de 500 metros quadrados cada um, apartamentos de um andar inteiro.

A sua opção foi a de comprar uma cobertura no Edifício Esther, o primeiro prédio modernista de São Paulo. Como estava o prédio quando você se mudou para lá?

No passado, a nata morava no Edifício Esther (originalmente, o prédio, inaugurado em 1938, tinha lojas no térreo, escritórios nos três primeiros andares, e unidades habitacionais do quarto ao décimo andares, e mais uma cobertura). Mas, o prédio tinha entrado em profunda decadência. Saiu a nata, e sem classe média que ocupasse o seu lugar, o que virou? Os proprietários dos apartamentos fizeram o quê? Alugaram para pessoas jurídicas de péssima qualidade. Tinha até salas utilizadas para serviços de ‘camas quentes’. As pessoas alugavam salas, enchiam de colchões, e as pessoas dormiam lá, de forma rotativa, durante algumas horas, ao longo do dia ou ao longo da noite. Levanta um, deita outro. O Esther chegou a esse nível. Então, esse é retrato da realidade a que chegou o centro de São Paulo. A qualidade dos edifícios despencou, porque não houve intermediário, a classe média que ocupasse o lugar, deixado vazio pela nata que saiu do centro. Quando cheguei ao Esther, tinha lá até uma Mesquita.

Dos chefs contemporâneos, você se tornou o único a tomar essa dessa decisão de fixar residência na área central?

Sou o primeiro dessa geração a vir a morar aqui. Isso foi em 2006. Os primeiros a abrir novos negócios da gastronomia de qualidade aqui na região, depois que o centro entrou em decadência, foram o Jefferson e sua esposa, Janaína Rueda, com o Bar da Dona Onça (inaugurado em abril de 2008), no térreo do Edifício Copan, e, depois (em 2015), a Casa do Porco, na Rua Araújo com a General Jardim. Inaugurei o Esther Rooftop, na cobertura do Edifício Esther, em 29 de agosto de 2016, e, no térreo do mesmo prédio, em 31 de maio deste ano, a Mundo Pão do Olivier. O Dona Onça é um estabelecimento que conversa com as tribos locais, vindas da região do Baixo Augusta: hipsters, punks, os barbudos, os tatuados, e a classe média meio artista, meio intelectual.

Depois de abrir um bistrô na cobertura onde você morava, montou uma padaria no térreo do edifício, a Mundo Pão Olivier. Como está o movimento nessa loja de pães?

Na porta desta minha casa passam, todos os dias, 800 mil pessoas. A Mundo Pão fica de frente da Estação do Metrô da Sete de Abril e Praça da República. Essa particularidade significa um leque muito aberto de classes sociais, com um fluxo de gente que é muito forte. Nesse gigantesco fluxo, há muitas pessoas que gostariam de ter um lugar onde se sintam bem. É uma nova classe média, são as pessoas que trabalham no centro, é todo o jurídico (os que estão empregados em escritórios e os sócios), um público de passagem, abrangente, de todas as camadas sociais. O meu orgulho é que essa minha clientela é nova. Vem do topo da pirâmide, lá do outro lado da Paulista, dos Jardins; vem de qualquer lado da cidade; vêm os turistas de todo o Brasil, que desembarcam em São Paulo.

Iniciou-se, em São Paulo, um fenômeno novo, bem recente, que é o de a média classe média considerar o centro como local de moradia. Como se explica isso?

A classe média começou a existir no Brasil a partir do Plano Real, a partir de 1995, passando a ter realmente consistência até o meio dos anos 2000. Por isso, só agora temos uma verdadeira classe média, que está inclusive vindo morar aqui no centro. Isso começou a acontecer no Edifício Copan, com as tribos que desceram do Baixo Augusta, reconhecendo-se ali, nos apartamentos e escritórios, porque são uma nova geração, são urbanos. E a Praça da República também está sendo habitada por uma classe média B2 e por estrangeiros. Porque hoje há estrangeiros, que é o que não se tinha antigamente no Brasil. E tudo isso é fruto da estabilidade econômica do Plano Real, com certeza.

O que está acontecendo de novo na região central, especialmente na Praça da República?

No centro, está começando a surgir um novo pool gastronômico da cidade. Todo mundo do setor está vindo para cá, como a Z Deli (hamburgueria). E diversas incorporadoras, como a Setin, estão construindo aqui prédios que não são de negócios, mas residenciais, e não de classe alta, mas da classe média B1. É a nova classe média, jovem, que vem morar em apartamentos pequenos, funcionais, acessíveis. O que isso significa? É um repovoamento. Vejo essa transformação não apenas de dentro dos meus estabelecimentos (o bistrô Esther Rooftop e a Mundo Pão), mas também da janela de minha casa. De lá, olho a praça cheia de uma gente que nunca tinha visto antes: famílias inteiras, de baixa classe média, de média classe média, pessoas que são, claramente, turistas, que não existiam aqui dois anos atrás. Está cheio de turistas.

No Rio, volta e meia se fala em se estimular moradias na área central, mas isso não acontece, mesmo com os investimentos realizados para a Olimpíada. Por quê?

A revitalização do centro do Rio não tem nada a ver com a revitalização do centro de São Paulo. Porque lá não tem nenhuma residência. Deveriam pegar os imóveis vazios, desocupados, e fazer um refit neles (uma reciclagem, um reaparelhamento), para que voltem a ser moradias. O centro do Rio é lindo, lindo. O que acontece no centro é que ele não é só para frequentar, é para também morar, o que não acontece no Rio. E isso muda completamente a textura, a consistência desse movimento de gente. No Rio depois do horário comercial, o centro fica vazio, morto. A partir do momento em que não se tem residência, os bairros ficam mortos. E a partir do momento em que se têm exclusivamente residências, também são bairros mortos. Você tem que misturar. Misturar classes sociais, culturas, residências, negócios.

Por que os brasileiros de renda mais alta, aí incluindo os paulistanos, têm aversão ao centro das cidades.

Em São Paulo, efetivamente, tem uma categoria que mora justamente do lado da Paulista (a avenida), e não se conforma em valorizar o centro. Valorizam o centro de Paris, Milão, Nova York, Barcelona. Valorizam pra caramba. Aqui, eles não querem saber. Como muitos fugiram do centro, eu fiz exatamente o inverso. Já há onze anos moro na Praça da República. Abri, no teto, na ‘penthouse’ (cobertura), do Edifício Esther o Esther Rooftop. E, no térreo, a Mundo Pão. A tendência do brasileiro é de não se misturar. Fica em tribo. É cultural. Você vai em qualquer restaurante, e vê em todas as mesas o mesmo tipo de gente. As pessoas de uma classe social vão ao mesmo restaurante porque não se sentem à vontade em outros lugares. Querem estar sempre juntas das pessoas que correspondem o que elas são. É triste isso.


Os fatos na vida de um dos mais brasileiros de todos os franceses
1959 – Olivier Anquier nasce em 11 de novembro, o primeiro dos cinco filhos e filhas do médico anestesista François Anquier e da dona de casa Myriam Cordellier. 

1967 – Inicia um período de dois anos na casa da avó e bisavó maternas, respectivamente Christiane e Julia Cordellier, em Boissy-le-Châtel, então um vilarejo com 500 habitantes.

1975 – Os pais se separam. A mãe, posteriormente, muda-se para Sydnei, na Austrália, onde se torna fundadora e proprietária da Victoire Boulangerie, herdando o ofício do tio dela, o padeiro Gilles Cordollier. 

1979 – Em 15 de dezembro, chega à cidade do Rio de Janeiro, com 20 anos de idade, para passar um mês de férias. Adia sucessivamente o retorno a Paris, até se decidir por permanecer no Brasil. Inicia, a partir do Rio, carreira de nove anos como internacional de modelo, com largas temporadas nas passarelas europeias e em campanhas para os maiores estilistas mundiais. 

1989 – Falece o pai, Dr. François Anquier. Olivier abandona a profissão de modelo no auge da carreira, e decide voltar definitivamente ao Brasil. Viaja pelo litoral nordestino, prospectando um local para abrir uma pousada, mas que acabou sendo o seu primeiro restaurante, o Aloha, no balneário cearense de Jericoacoara. 

1991 – Casa-se com a atriz Débora Bloch.

1992 – Abre em Florianópolis, o restaurante Malaïka, na Lagoa da Conceição. 

1994 – Nasce a filha Júlia, hoje com 23 anos.

1995 – Abre em São Paulo, na Rua Mato Grosso, atrás do Cemitério da Consolação, a Pain de France. Antes, passa três meses trabalhando com sua mãe na padaria Victorie, na cidade australiana de Sydnei. Faz uma imersão nos processos adotados no estabelecimento, como os da logística e os da operação de uma padaria artesanal. 

1996 – É contratado pela TV Record para apresentar o programa “Forno, Fogão e Cia”. Encerra as atividades da Pain de France. 

1997 – Monta uma linha industrial de panificação para fornecer pães a 40 lojas do Grupo de Açúcar. Constrói uma casa de campo na Serra da Bocaina, divisa entre os estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Nasce o filho Hugo, hoje com 19 anos.

1998 – É contratado pela Rede Globo para apresentar, da França, a série de programetes, denominada “O Francês”, durante a Copa do Mundo. No seu retorno ao Brasil, cria e apresenta o Diário do Olivier, no GNT, utilizando a cozinha do seu sítio, na Serra da Bocaina, para executar e gravar receitas desse programa de televisão.

2003 – Com a ajuda do irmão caçula, Pierre, inaugura a padaria Anquier, no térreo do Edifício Paquita, na Praça Buenos Aires, no bairro paulistano de Higienópolis, que funciona até 2005, em face de restrições impostas pelo condomínio do prédio. 

2005 – Separa-se de Débora Bloch.

2007 – Em novembro, une-se matrimonialmente a atriz Adriana Alves.

2008 – Inaugura dois restaurantes L’Entrecôte D’Olivier, respectivamente nos bairros do Itaim e Jardim Paulista. 

2013 – Passa a apresentar, também no GNT, o programa Cozinheiros em Ação. 

2016 – Em agosto, inaugura o bistrô Esther Rofftop, na cobertura do Edifício Esther.

2017 – Em 3 janeiro, nasce Olívia, filha do casal Adriana e Olivier Anquier. Em março, opta por encerrar 19 anos de apresentação dos programas gastronômicos no GNT. Em maio, inaugura a Mundo Pão Olivier, no térreo do Edifício Esther. 
Valerio Fabris

Valerio Fabris

Editor

2 comentários em “A ascensão das moradias no centro de São Paulo

  • 20 de novembro de 2017 em 14:23
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    Monsieur Valery Fabris, Tu es formidable comme tu es!

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  • 21 de novembro de 2017 em 11:10
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    Uma boa aula para gestores “cabeção”, que não vêem o que o Anquier e você, nosso prezado Valério Fabris, enxergam de longe.

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