A aterosclerose e as múmias

A doença silenciosa mais temida é a aterosclerose ou arteriosclerose. É uma patologia de causa desconhecida que se desenvolve assintomática nas paredes das artérias e pode resultar na sua completa oclusão. Nas artérias, a aterosclerose apresenta calcificações típicas que confirmam a presença da enfermidade. Em consequência disso, se o sangue não chega aos tecidos irrigados por aquele vaso, o efeito desastroso é a necrose com graves consequências, entre elas o infarto do miocárdio, o acidente vascular cerebral ou AVC isquêmico, a embolia pulmonar e o infarto renal. A aterosclerose é considerada uma epidemia mundial na atualidade. É o que dizem os médicos.

Embora sua causa ainda seja uma grande incógnita já faz parte do conhecimento popular que a doença é resultado do tabagismo, da dieta carregada de gordura animal, do consumo de carnes processadas industrialmente, do estilo de vida ocidental sedentário, do diabete melito, da hipertensão arterial e de níveis elevados do colesterol. As doenças decorrentes da aterosclerose são responsabilizadas hoje por 50% dos óbitos no mundo ocidental.

Uma publicação trouxe mais luz para essa discussão (JAMA 2009, 302 (19), 2091-2094). Um grupo de cinco médicos experientes e especialistas em exames de imagem examinou 22 múmias guardadas no Museu Nacional Egípcio de Antiguidades, cidade do Cairo. Eles selecionaram as 16 múmias em melhor estado de conservação de modo a oferecer melhores imagens. As múmias foram submetidas a um exame de tomografia computadorizada e analisadas pelos especialistas em imagens cardiovasculares. A idade provável e sexo dessas múmias foram determinados por meio da antropologia biológica e pela demografia por uma equipe de egiptólogos preservacionistas.

Todas as 16 múmias foram identificadas como sendo de membros da corte do faraó, sacerdotes e sacerdotisas. Numa parcela muito grande delas foram encontradas calcificações nas paredes das artérias que confirmavam o diagnóstico de aterosclerose. Uma dessas múmias era da criada da rainha Nefertari Amrose, que morreu cerca de 1530 AC e com uma idade estimada entre 30 e 40 anos. As imagens sugerindo aterosclerose foram encontradas em artérias como a aorta torácica, sua porção abdominal e na femoral superficial semelhantes às imagens de calcificações mostradas no exame de um homem contemporâneo.

Como conclusão, podemos afirmar que aterosclerose não era rara mesmo em egípcios de meia idade contrariando a consagrada hipótese de que se trata de uma doença do mundo moderno. Quando analisamos sobre o aspecto dos hábitos de vida as hipóteses atuais ficam ainda mais insustentáveis. Os egípcios não fumavam o tabaco, não comiam alimentos processados industrialmente e eram indivíduos sedentários. Na alimentação o uso da carne e de produtos da agricultura era comum entre eles. A ocorrência da hipertensão arterial e do diabetes naqueles tempos é desconhecida.   

 

Paulo Timóteo Fonseca

Paulo Timóteo Fonseca

Médico da Saúde da Família

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