A cara e a máscara

O homem é aquilo que ama, aquilo que come, mata ou rejeita. Aquilo que suporta, que machuca, ignora ou alimenta. Aquilo em que acredita ou aquilo que odeia. O homem é fruto do que faz e do que deixa de fazer. Todo homem tem uma cara. E sua cara é o seu caráter. O seu destino.       

É possível conhecer alguém somente pela cara que exibe. Pelo brilho dos olhos, pelo desenho da boca, pelo jeito com que mastiga o silêncio, pela forma como o nariz cai sobre o bigode ou como as sobrancelhas se sustentam na testa. Até mesmo pela barba que disfarça o desenho final do rosto, é possível conhecer um homem. Acredito que somos capazes de adivinhar o que ele faz, o que ele é, pelo rosto e pelas marcas do rosto, mesmo que esteja nu no elevador. O problema é que o homem tem, além da sua cara, a máscara que, um dia, será o seu outro destino. E, pela cara ou pela máscara é que ele será reconhecido.

Digo isso porque, ultimamente, durante meus sonos, tenho sido assaltado por sonhos que chegam sorrateiros, como notícias que passam por baixo da porta. Neles, eu revivo as mais variadas formas de torturas e os mais cruéis torturadores. O requinte e a estupidez das suas mais diversas técnicas, a diferença entre a tortura física e a psicológica, a tortura sexual, a tortura espiritual, o bom e o mau torturador.

A cada novo sonho, desperto com a cabeça a ponto de estourar. Um clarão teima em me levar de volta ao passado, ao verão de 1971.

Gritos ameaçadores acompanhados de fuzis e metralhadoras arrombam a porta. Canos em minha cabeça me atiram ao chão de onde assisto ao desmontar da minha casa. Depois, fragmentos de luz tentam penetrar a venda negra que tapam meus olhos. Sem camisa e de bermuda, impregnado de medo e suor, procuro adivinhar o que farão comigo os torturadores que me esperam no fim da linha. O camburão roda pela cidade durante infindáveis horas. O fim da linha é um quartel, um museu do horror, onde estão camuflados os aparelhos de tortura e os torturadores.

Me arrancam do camburão, atiram-me contra uma parede e começam a fazer perguntas. Nome, sobrenome, codinome. Apenas um verso, que escreverei anos depois, me vem à cabeça: “Perguntei a um homem o que é a fome. Ele me devorou o nome.” Me conduzem por uma porta que se fecha atrás de mim. Sinto que acabei de  entrar no inferno. As primeiras perguntas vêm precedidas de socos e pontapés. Não querem respostas, querem gemidos. Não querem nomes, querem humilhação, não buscam segredos, querem nossas lágrimas e nossos gritos de dor.

Um violento soco no estômago me dobra como uma folha de papel. Desabo no chão frio e úmido do calabouço. Garras de metal apertam os dedos dos meus pés. Uma sequência de choques estremece meu corpo como um terremoto. Terror. E tudo se apaga. Não vi um só rosto, uma só cara, uma só máscara dos que tentaram me transformar em verme, em sombra, em ruína de mim mesmo.

Mas sei que as máscaras denunciam as caras dos torturadores. Aonde quer que vão, onde quer que estejam, eles terão que esconder, para sempre, os rostos dentro de seus paletós ensopados de sangue. Terão que tapar os ouvidos para não ouvir os gritos dos torturados. Serão condenados a temer o dia e usarão óculos escuros para camuflarem as máscaras que denunciam o terrível brilho de seus olhos. E serão escorraçados de todos os lugares, até mesmo dos meus sonhos e pesadelos, porque serão sempre reconhecidos.

Eles não sabem, mas essa é a maldição da máscara que cai sobre suas caras.

TMercador

TMercador

Publicitário, poeta, tradutor e clarinetista diletante

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *