A cidade de cores, aromas e sabores

As feiras livres são movediças, como as ruas da Belo Horizonte desenhada por Aarão Reis. Foi ele quem colocou a roda de bicicleta em cima da toalha xadrez. Na superposição do traçado das ruas, as paralelas ficam sem sentido, embaralhadas pelos raios que se abrem, a partir do miolo das praças e rotatórias, ao encontro do grande aro da Avenida do Contorno.

Perdoem-me os arquitetos e urbanistas as possíveis impropriedades, que não aqui não têm a conotação de aleivosia, essa palavra em desuso, cujo sinônimo é calúnia, ou falsa acusação. Há palavras que, no curso de exíguas cinco décadas, ficaram obsoletas. As lojas de tecidos, por exemplo, faziam a queima de estoques, sob o declarado pretexto do combate à carestia, que passou a atender pelo singelo nome de inflação.

Se nascesse hoje, a escola de samba do bicheiro Castor de Andrade teria o nome de Juventude Independente de Padre Miguel, porque mocidade cheira à naftalina, que, aliás, foi igualmente pro ralo dos tempos, e lá se dissolveu, dando maior liberdade às baratas, que hoje aparecem mais amiúde, isto é, repetidamente, nesta cidade e alhures. Ou seja, noutro lugar.

Penso na frase de Galileu Galilei (1564-1642) quando ando pelas ruas de Belo Horizonte. O traçado urbano é estático, mas se move. Eppur si muove!, murmurou o físico, astrônomo, matemático e filósofo italiano depois de condenado pelo tribunal da inquisição, em Roma, por afirmar que a Terra gira em torno do Sol. A cidade tem a lógica das feiras livres.

São mais de 100 feirantes que se revezam em 59 pontos de todos os bairros de Belo Horizonte, de segunda a sexta, e, em alguns locais, também nos sábados e domingos. Às seis da manhã, as barracas começam a ser erguidas, em bancas geralmente assentadas sobre cavaletes e protegidas por lonas. O atendimento ao público estende-se das 7h às 13h.

Nascidas no berço da civilização, as feiras são uma benévola, sussurrante e organizada desordem. Uma babel de cores, aromas e sabores que, desde os mesopotâmios, passou a se infiltrar em todos os poros sensoriais, tornando o homem mais propenso a desenvolver a sensibilidade, a arte do viver e do conviver. Os mesopotâmicos criaram o ano de doze meses, a semana de sete dias, o plantio de acordo com as fases da lua, o círculo de 360 graus e o processo aritmético da multiplicação.

O primeiro canteiro do comércio no meio das ruas foi cultivado na cidade-estado da Babilônia. Dela brotou a palavra babel, em meio à algaravia dos mercadores, à confusão citadina e cidadã das feiras livres, que guardam em si os gestos ancestrais do aperto de mão e do sorriso, e desta saudação tão simples e bela como o amanhecer: bom dia.

Valerio Fabris

Valerio Fabris

Editor

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