A classe política não percebe o que a sociedade sente

 

Por Thiago Bernardo

 

Há quem diga que “meio ambiente” está um tanto na moda. Principalmente após as pesquisas e alardes sobre o aquecimento global, precedidos pela modesta Eco92,  tornou-se uma pauta  presente nos assuntos do dia a dia, no bate papo de boteco, nos trabalhos de escola, na rotina profissional.  Do mesmo modo, é motivo de matérias e artigos nos jornais, de debates nas rádios e tevês, de comentários na rede social.     

Todos falamos de meio ambiente.  As recorrentes alusões ao assunto já sinalizam, por si só, o grau de importância do desafio que temos diante de nós. O sentido de urgência vem provocando a alteração de hábitos e, até mesmo, o resgate de costumes que havíamos deixado de lado, como a utilização de sacolas retornáveis, nas compras em hortifrúti e nos supermercados.  

A quase onipresença da expressão meio ambiente em nosso cotidiano explica por que o Ministério da Educação a incluiu entre os temas transversais dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), orientando os professores nas novas abordagens e metodologias.  Mas, a despeito do inquestionável despertar da consciência ecológica, no âmbito da sociedade, o tema meio ambiente passou ao largo das recentes eleições municipais, em todo o país.

O que se vê, portanto, é um distanciamento da classe política em relação aos sentimentos da sociedade.  A tônica das campanhas deu-se na segurança, na saúde, nos transportes públicos.  O meio ambiente ficou de fora, sem conexão com os temas abordados pelos candidatos.  Ao falar da saúde, negligenciaram-se aspectos como a coleta e reciclagem do lixo, o tratamento do esgoto de modo eficiente, o reflorestamento dos mananciais para garantir o abastecimento de água, o incentivo a alimentos mais saudáveis para a população, como os orgânicos.

Na questão do transporte público, faltou a abordagem sobre a eficiência, o que implica  a utilização de tecnologias sustentáveis, que geram um balanço positivo, em termos de menor poluição, menor custo, e maior escala de passageiros transportados.   No que concerne à segurança pública, que é um tema mais amplo, há uma relação intrínseca com a questão ambiental: ela, a segurança pública, é resultado de um ambiente que possa proporcionar qualidade de vida, saúde e dignidade para todos, tendendo a um equilíbrio social e econômico. Estas são consequências diretas da adoção de medidas sustentáveis e ambientalmente coerentes.

A campanha eleitoral evidenciou que há um paradoxo. De um lado, o tema meio ambiente está na moda.  Do outro, vê-se que há uma dissintonia entre o que o povo sente e o que os seus representantes, nas esferas do Executivo e do Legislativo, efetivamente percebem desse sentimento geral.  O que se constata é a estreiteza da visão ambiental por parte dos políticos.  Associa-se meio ambiente à Serra do Cipó, ou à Amazônia, ou ao Pantanal.  Mas não se conectam à esfera do ambiental o óleo que pinga do motor do carro, a poluição sonora e visual das cidades, o encaixotado Rio Arrudas.     

Transversalidade

Meio ambiente é tema tão transversal que, forçando um pouco a barra, podemos afirmar que ecologia e equilíbrio ambiental são conceitos presentes até em nossos intestinos. Se a microbiota intestinal não estiver em equilíbrio, o organismo adoece. É isso que ocorre hoje com o mundo. O desequilíbrio tornou doente nosso dia a dia, a nossa sociedade. Para que se tenha uma ideia, a poluição do ar já é, segundo a Organização Mundial de Saúde, a principal causadora de doenças respiratórias, desbancando do topo da lista dos agentes daninhos aos seres humanos o tabaco e os demais produtos fumígeros.

A transversalidade ambiental – ou a necessidade dela – alcança também a mídia.

Absolutamente todas as editorias de um jornal ou seções de uma revista podem tratar o tema meio ambiente em suas pautas, o que efetivamente não acontece. Talvez falte certa “maldade jornalística” ou sensibilidade para isso. Quando as notícias sobre o Pré-Sal surgiram na mídia, nenhum jornal relacionou a descoberta à tendência mundial em diminuir a dependência do petróleo. Cada um dos cadernos –  seja ele o de moda, economia, comportamento ou esporte –   pode incorporar o viés “verde” em suas pautas. Talvez este seja um dos caminhos para se difundir conceitos e ideias relacionadas ao tema, aumentando o leque de análises e pontos de vista.

Quando chegarmos neste ponto, mais pessoas passarão a preferir o transporte púbico ao carro a gasolina ou elétrico. O alimento orgânico será o mais cultivado, já que os outros alimentos perderão mercado. Separar o lixo será tão natural quanto escovar os dentes. Crimes ambientais serão crimes contra a vida.

 


Thiago Bernardo é jornalista e atua na área ambiental desde sempre, pessoal e profissionalmente. É coordenador de Comunicação da Fundação Biodiversitas.

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