A discórdia ortográfica

Firmado em 16 de dezembro de 1990 e adotado obrigatoriamente no Brasil em 1º de janeiro último, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa continua cercado de polêmica, principalmente em Portugal, onde sofre a desaprovação de mais da metade da população.

Esta semana, em Lisboa, a Associação Nacional de Professores de Português (Anproport) entrou com uma ação no Supremo Tribunal Administrativo solicitando que as escolas do país sejam desobrigadas de ensinar segundo o acordo.

Ao mesmo tempo, a Academia das Ciências de Lisboa (ACL) divulgou um comunicado informando que está empenhada no aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico de 1990, com o intuito de pôr fim à “instabilidade ortográfica”.

A entidade anunciou que apresentará um estudo destinado a aperfeiçoar o acordo e “estabelecer novos critérios orientadores mais uniformes”.

A ação da Anproport partiu de uma iniciativa do grupo “Cidadãos contra o Acordo Ortográfico de 1990”, constituído na rede social Facebook e que já tem mais de 30 mil membros. Membro desse grupo, o jurista Artur Magalhães Mateus disse que as escolas precisam voltar a ensinar uma grafia correta. “Há palavras que estão a ser escritas e acentuadas de forma errada”, afirmou.

No Brasil

A Operação Lava Jato – ou seria Lava-jato, com hífen? –, que vem abalando a República, suscita, entre os advogados, não apenas questionamentos quanto a alguns de seus aspectos legais. A grafia da denominação da operação conduzida pelo juiz federal Sérgio Moro está entre as dúvidas que levaram a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) a propor, no ano passado, uma nova discussão sobre o Acordo Ortográfico. Para a entidade, as novas regras ainda deixam dúvidas na grafia de diversas palavras.

acordo_ortograficoO assunto já foi discutido pela OAB com a Academia Brasileira de Letras (ABL) e o Ministério das Relações Exteriores. A principal queixa dos advogados diz respeito à grafia de termos usados no meio jurídico, principalmente no tocante ao emprego do hífen, como no caso da Lava Jato (ou Lava-jato?).

“A imprensa grafa de todas as maneiras, com e sem hífen. O acordo não está claro. Quando duas palavras se juntam e dão origem a outra palavra, tem hífen. Mas, segundo a academia, quando perde-se a noção de composição e não se sabe a origem da palavra, como é o caso, não se usa o hífen”, explicou o professor Carlos André Nunes, especialista em Língua Portuguesa e representante da OAB para Assuntos sobre Nova Ortografia.

Há dúvidas também quanto ao emprego de iniciais maiúsculas em determinados substantivos, como no caso de “país”. A OAB sugere que, se um texto mencionar Brasil e, logo em seguida, país, escreva-se País.

Além disso, a entidade não concorda com a eliminação do trema, que considera fundamental para a definição da pronúncia de determinadas palavras.

Ronaldo Lenoir

Ronaldo Lenoir

Editor

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