A fantástica fábrica de gelo

Durante minha infância em Curvelo tive a sorte de ser vizinho de um lugar incomum, que ganhava cores surreais da imaginação.

Misto de galpão industrial e castelo, a antiga fábrica de gelo do Zé Ramos era, nos distantes anos 70 e 80, um ponto de transbordo entre os bem-equipados pescadores de Belo Horizonte e os graúdos peixes de Três Marias.

Na breve passagem pela nossa cidade, turistas rumo à colossal represa do norte-mineiro enchiam caixas de isopor com lascas de gelo, que conservavam frutos da viagem no retorno ao lar. Tinha até quem parava ali no caminho de volta, para reforçar o congelante. Sábado, véspera de feriadão e férias escolares eram dias de comércio quente na fábrica.

Nos dias de grande movimento, ficava só observando o abastecimento de carros, ouvindo histórias de pescaria. Mas o que mais atiçava minha curiosidade era saber como funcionava a linha de montagem das enormes barras cilíndricas de gelo. A grossa parede do frontispício não dava pistas do que ocorria lá dentro, exibindo no alto só duas janelinhas de calabouço.

Ao lado daquele prédio amarelo de pé direito alto havia um amplo pátio de circulação coberto de cascalho e cercado por garagem coberta, escritório e outras dependências. A única entrada pela rua era um portãozão de ferro com manchas avermelhadas de ferrugem, adornado com arabescos e encimado com ameaçadoras pontas de lança. O abrir e fechar daquele trambolho com cadeado e correntes produzia agudos rangidos e trovejadas.

Cruzar a sombria barreira da fábrica era quase uma aventura. Adentrar aquele espaço mágico com maquinário estranho e coberto por telhas de barro era como chegar ao interior de um submarino de alvenaria. Nesse ambiente de temperatura normal havia inúmeras tubulações a formar o peculiar processo de refrigeração. Eram longas fileiras de canos na horizontal e na vertical, alguns deles submersos em piscinões onde cágados nadavam.

Consigo lembrar de dois salões da fábrica, o primeiro e maior deles com válvulas, escotilhas, relógios de medição e conexões salpicadas de musgo e neve. O outro era onde estavam os tanques de repouso das fôrmas de metal para gelo, semelhantes a gigantes gizes de lousa. O único barulho era o das manobras das barras. Por isso tudo, Zé Ramos era como um Willy Wonka, personagem do filme “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, a guardar segredos de seus produtos diferenciados e a fomentar sonhos das crianças.

Sílvio Ribas

Sílvio Ribas

Jornalista

Um comentário em “A fantástica fábrica de gelo

  • 2 de novembro de 2016 em 02:22
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    Suas lembranças de antanho só comprovam que para onde formos o passado Nunca nos abandonará ! Gelo seu nome é Zé Ramos !

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