A hora do anjo

De volta pra casa. No rádio do carro Rolling Stones entoa “Gimme Shelter”. Vinte anos de distância e ainda é possível ouvir a voz de Mick Jagger implorando um naco de carinho.

São quase 6 da tarde. No canteiro central da avenida, entre sombras e restos de sombras, dois anjos caminham. Um azul, outro branco. Dois pequenos e inacreditáveis anjos com sapatos. Nunca vi anjos com sapatos.

A noite ainda não era e lá estavam eles, solenes e mudos como uma gravura, como um milagre. Pisando na grama seca do canteiro, eles surgiram e desapareceram no turbilhão do trânsito.

No rádio, o rock demoníaco dá lugar a um tenor que entoa a Ave Maria como se fosse me salvar. A imagem dos anjos me persegue. Azul e branco, com cabelos dourados, mudos cabelos barrocos.

Diabos! Me sinto como se eu fosse um eleito, uma fantasia no pior programa de TV do mundo. O destino me leva, incontinente, para uma loja de conveniências. Entro como um pastor em busca do vinho sagrado. Lá, encontro tudo que quero: um bom vinho português para sorver sozinho em casa.

Logo na primeira taça, compreendo que nenhum mundo é maior do que a nossa sala de visita. A segunda taça me fez perceber que o mundo é menor do que a nossa cabeça. Na terceira, descobri um outro mundo.

Lá fora, a noite destroça vidas e estrelas. Apesar de tudo, ainda cantamos.

Lâmpadas de 500 volts piscam incessantemente através das vidraças. Abro outra garrafa. Um mar de montanhas despeja ouro em meus ombros. Tento escrever sobre os sábios que sobrevivem às noites. Não encontro um sábio sequer. Abandono pelo meio a última taça. Vou dormir, na esperança de que o sonho ou o pesadelo ou a vigília me tragam inimigos, polêmicas, personagens, deuses esquecidos, fantasmas, amores inimagináveis.

Em meu sono, vi coisas que jamais vou esquecer. Vi lábios em brasa, olhos em lágrimas, mãos sem rumo, mãos vadias, palavras gentis como a brisa. Vi flores rubras surgindo de bofetadas, romances prosperando no deserto, crimes de amor no subúrbio, rugidos de ódio quebrando garrafas vazias. Vi o que a noite esconde entre os lençóis. Vi o tumulto nascendo do paraíso e a promessa do sexo e o fracasso do sexo e o sexo sem vida.

Páginas e páginas de jornais caíram do céu como insetos do apocalipse. Manchetes gritavam o fim do mundo, o último tormento, assassinatos em pencas. Nenhuma esperança de uma boa notícia. Acordei em sobressalto. A noite ainda estava lá.

Os ponteiros verdes do relógio brilham às três e meia da madrugada. Abro o chuveiro e deixo que a água morna lave meus pecados, meus medos irreparáveis.

O paletó de lã me envolve com particular carinho. O cigarro, o isqueiro e a carteira abarrotada de bilhetes e anotações sem nexo escorregam alegres pelos bolsos da calça. As chaves repicam como sinos quando as penduro no ilhós.

Estou pronto para mais um resto de noite. Atrás de mim a porta se fecha com um sussurro. Lá está o mundo à minha espera. Único mundo possível, única vida possível.

A lua deslizava entre os edifícios quando os dois pequenos anjos ressurgiram na esquina. Azul e branco. Querem carona, moram longe, pedem um trocado, estão com fome, tremem de frio.

Abro a porta do carro. Eles entram em silêncio. Alguma coisa em meu coração diz que, apesar das asas, estes anjos não fazem milagres. E, neste mundo desatinado, desprovido de sentido, meus anjos estão à espera de um milagre, do doce milagre da sobrevivência.

Ligo o rádio. De novo Mick Jagger mostra a língua e esgoela “Gimme Shelter”.

Os pequenos anjos fecham os olhos e balbuciam:

— Moço, toca pra rodoviária.

TMercador

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Publicitário, poeta, tradutor e clarinetista diletante

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