A impessoalidade nos obriga a enxergar o outro

Quando entramos nos restaurantes, com amigos e parentes, nos tornamos donos do ambiente. Então, é como se estivéssemos na sala de visita de nossas próprias casas. Falamos alto, gargalhamos à solta, petiscamos enquanto nos servimos do bufê, convocamos o garçom com o estalar de dedos e um psiu. O que significa isso? Em livros e entrevistas, o antropólogo Roberto Damatta aponta essas manifestações como sintomas da incivilidade no cotidiano brasileiro. É a histórica incapacidade de se separar o privado do público. Assim, a vida pertence exclusivamente ao domínio do pessoal.

As miudezas do trivial constroem os atos extremos. Temos diariamente assistido a cenas de violências de máxima brutalidade, a pretexto de se impor a vontade individual. O freguês assassina o dono do restaurante de autosserviço, porque foi solicitado a não mais deixar comida sobrando no prato; o membro da torcida organizada mata um adolescente com um sinalizador; militantes destroem laranjais de uma fazenda paulista e um centro de pesquisa de uma empresa gaúcha de celulose.

Somos donos do mundo e o nosso desejo não pode ser contrariado. “Estamos carentes da discussão de limite”, afirmou Roberto Damatta em entrevista concedida ao caderno Aliás, do Estadão, a propósito da morte do torcedor boliviano Kevin Douglas Beltrán Espada, de 14 anos. Basta que alguém esteja na torcida do time adversário para que se projete como o inimigo da nossa vontade. É um sentimento que se aguçou ainda mais nos últimos anos. “Agora que nós temos liberdade, vivemos numa democracia, eu posso fazer tudo o que quero”, acrescenta o antropólogo.

A lei é a do que se considera mais forte. Impõe-se quem ousa mais, obedece quem tem juízo. O Estado é o leão, o rei da selva. “No Brasil me parece clara a violência do Estado contra a sociedade que ele controla com mão de ferro por meio de alvarás, leis, licenças e aprovações”, disse Damatta na mesma entrevista ao Aliás. O exemplo vem de cima e se espalha pelo corpo social do país inteiro. Com a sensação de ampliados poderes, advinda da posse de bens antes inacessíveis, aflora e se exacerba onipotência personalista.

“A inclusão pelo consumo implica o controle da incivilidade e o saber usar o que se compra. Se um cidadão compra um carro, ele tem que saber os perigos e as responsabilidades implicadas no ato de dirigir”, exemplifica o antropólogo. A impessoalidade nos obriga a enxergar o outro, observou em um artigo sobre as pessoas que, nas salas de embarque dos aeroportos, acomodam-se em uma cadeira e tomam posse dos assentos vizinhos com suas malas e pacotes de compra. Trata-se de uma ocupação pessoal do espaço coletivo, à moda coronelista, em coerência com uma hierarquia internalizada desde os tempos da nobreza e da escravidão.

“Finalmente observo que quem não tem onde sentar-se fica constrangido em solicitar a vaga ocupada pela mala ou embrulho de quem chegou primeiro”, diz Damatta em seu artigo intitulado Em torno do espaço público no Brasil. A democracia só virá de fato, segundo ele, quando nos curarmos dessa “verdadeira alergia à impessoalidade”, pois “levar a sério o impessoal significa suspender nossos interesses pessoais, dando atenção aos outros, como iguais”.

Valerio Fabris

Valerio Fabris

Editor

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