A lixeira e a flor invasora

“Clerodentron thomsoniae é a mãe. O povo me chama é de lágrima de Cristo. Portanto, mais respeito comigo, viu?”. Se pudéssemos ouvir a voz das flores, é provável que levássemos essa bronca ao comentarmos uma curiosa situação clicada na Rua Pernambuco, quase esquina de Cláudio Manoel, em Belo Horizonte.

Julgando-se dona do mundo, só porque lhe atribuíram alguma relação com o crucificado, uma trepadeira de caules e folhas vigorosos, mas de flores suaves e generosas, tomou conta de uma lixeira. Não pediu licença, não deu satisfação a ninguém. Tampouco procurou saber se a lixeira estava em uso. Simplesmente invadiu e pronto.

A lixeira é daquelas feiosas armações de ferro sujeito à ferrugem, que alguém plantou nas calçadas de boa parte da cidade. O propósito é válido: receber os sacões de lixo recolhidos pela faxina dos prédios e mantê-los a salvo dos cães de rua, até que o caminhão da SLU os apanhe. Funcionam. Mas alguém podia pensar numa solução mais apresentável, menos tosca.

Nem disso quis saber a lágrima de Cristo. E, agora, ela está ainda mais dona da situação. É que ninguém do prédio que usava a lixeira reclamou. Pelo contrário. Os moradores mantêm a gerigonça de ferro limpa e com sua tampa gradeada permanentemente aberta. Não querem que nada incomode a princesinha da rua.

Para a sorte dos que sabem apreciar essas pequenas boas coisas da cidade em que vivemos aquela lixeira nunca mais recolheu lixo. A não ser quando por ali passa um infeliz desatento e descarta algo que não mais deseja sobre as flores delicadas da trepadeira invasora. Se ele pudesse ouvir as flores, além de levar bronca, ficaria sabendo de quem são aquelas lágrimas.

 

Pedro Lobato

Pedro Lobato

Jornalista

4 comentários em “A lixeira e a flor invasora

  • 10 de janeiro de 2017 em 18:57
    Permalink

    Muito bacana, bela observação e a história !!

    Resposta
  • 11 de janeiro de 2017 em 14:14
    Permalink

    Pedro
    Sua poesia juntamente com a flor lágrima de Cristo invadiu a lixeira e numa sutil explosão de cores aconteceu.
    Embebedou, alegrou e mobilizou os transeuntes deixando todos mais calmos e menos insensíveis. Parabéns mais uma vez!!!!!

    Resposta
  • 11 de janeiro de 2017 em 15:50
    Permalink

    Parabéns pela sensibilidade! As flores sao os seres mais sensíveis. E agradecem o carinho e amor

    Resposta
  • 11 de janeiro de 2017 em 17:09
    Permalink

    Pedro
    sua poesia juntamente com a flor lágrima de cristo invadiu a lixeira e sutilmente uma explosão de cores aconteceu. Embelezou, alegrou os transeuntes deixando-os mais calmos e menos insensíveis. Parabéns mais uma vez por tão belo texto.

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *