A medicina e a cidade

A exposição “Medicina e Política: caminhos cruzados na história da Capital”, no Museu Histórico Abílio Barreto, mostra um dos muitos entrelaces da medicina e da história de Belo Horizonte. Seis médicos estiveram à frente da prefeitura da capital em 120 anos a serem comemorados em dezembro. Na exposição, o Centro de Memória da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (Cememor) destaca três momentos marcantes sob a administração de prefeitos médicos.

No início do século XX, Cícero Ferreira, ainda que por um curto período, contribuiu para a estruturação da Nova Capital. Com Juscelino Kubitschek, nos primeiros anos da década de 1940, Belo Horizonte ganhou ares de cidade moderna e arrojada. Célio de Castro enfrentou os muitos desafios da virada para o século XXI.

Mas a medicina está inscrita na história da cidade desde muito antes da inauguração, como mostram as “Diretrizes à Comissão de Estudo das Cinco Localidades Indicadas para a Construção da Futura Capital de Minas Gerais”. O documento de 09/12/1892 determina que a Comissão Técnica encarregada do estudo verifique as condições propícias à saúde pública nas localidades de Barbacena, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Várzea do Marçal e Paraúna. A Comissão deveria examinar as moléstias mais frequentes, as causas naturais e possibilidades de tratamento. A Comissão Técnica indicada pelo engenheiro-chefe Aarão Reis trabalhou entre janeiro e maio de 1893. Era formada por cinco engenheiros e um médico higienista com a premissa de que “ O conhecimento das molestias mais frequentes nas localidades percorridas é serio contingente para se firmar a escolha da melhor sede para a nova capital. ”      

O médico relatou febre tifoide, tuberculose e doenças venéreas, mas ficou mais preocupado com bócio e cretinismo. Dedicou mais de 20 páginas às duas doenças e concluiu: “Por mais vantagens que ofereça a localidade BeIlo Horisonte para populosa, vasta e industriosa capital, desde que alli grassa o bócio e o seu consectario o cretinismo, que é uma  degeneração do homem, e cujas causas não se podem remover por não estarem ainda conhecidas, aqui e algures, perguntâmos: quem, na qualidade de juiz consciencioso, escolheria esse logar paracapital do futuroso Estado mineiro, apezar de suas paisagens, de seu ceo sempre azul, de suas aguas limpidas eabundantes, de suas riquezas mineraes e vegetaes?”  O engenheiro-chefe Aarão Reis não mencionou o assunto, mas indicou Várzea do Marçal para a nova capital por causa da quantidade de terras devolutas. O Congresso Mineiro acabou aprovando Belo Horizonte que, sob o estigma do bócio, ganhou logo o apelido de Papudópolis.  

Instalada, a Comissão Construtora tratou de adquirir 7 volumes da “Encyclopedie d’ Hygiene et de Medicine publique”, conforme fatura de janeiro de 1896 do Acervo da Comissão Construtora da Nova Capital de Minas.  E mesmo antes da inauguração, um desafio na saúde pública: uma epidemia de varíola levou à construção do primeiro “hospital”, um barracão de pau-a-pique e cobertura de zinco, na região do Calafate.  A empreitada ficou a cargo do médico Cícero Ferreira, o primeiro a exercer a medicina em BH. A epidemia foi controlada sem registro de mortes.  Em setembro de 1899, começaram os atendimentos na Santa Casa, em barracas de lonas, progressivamente substituídas por alvenaria, graças a doações. O terreno para a construção do hospital foi doado pela prefeitura.

Em 1911, era criada a Escola de Medicina, com sede no Palacete Thibau, na esquina de Afonso Pena com Espírito Santo. Funcionou ali até 1914, quando foi transferida para o atual Campus da Saúde, terreno desmembrado do Parque Municipal.  Em 1927, a Escola de Medicina passou a constituir a Universidade de Minas Gerais, federalizada em 1949.  

Ainda em 1918, a Faculdade de Medicina se juntou aos esforços da Diretoria de Higiene para combater a epidemia de gripe espanhola. Um hospital provisório funcionou nas dependências da instituição e as aulas foram suspensas para que professores, funcionários e alunos ajudassem no atendimento à população. Jornais da época contam que mil velas foram instaladas na frente da Faculdade para facilitar a movimentação noturna de ambulâncias.    

Outra referência importante na área da saúde em Belo Horizonte são os sanatórios para tratamento da tuberculose, graças ao clima que era exaltado como ameno e saudável. O primeiro foi inaugurado em 1927. Lembranças da época permanecem inscritas na paisagem da capital, em prédios hoje ocupados por hospitais como André Cavalcanti e Madre Teresa. No local do antigo Sanatório Belo Horizonte, no Bairro Santo Agostinho, parte da vegetação está preservada no Parque Rosinha Cadar. Médicos pioneiros também vieram atraídos pelo clima. Entre eles, fundadores da Faculdade de Medicina da UFMG, como Hugo Werneck, que inaugurou o atendimento ginecológico na cidade.

A medicina também se entrelaça com outros campos da vida da capital. Na literatura, por exemplo, com Pedro Nava e Guimarães Rosa que eram médicos. Nava, contemporâneo de JK na Faculdade de Medicina da UFMG, é considerado o maior memorialista brasileiro e deixou obras com registros importantes sobre a vida na Faculdade e na jovem capital do fim dos anos de 1930.  

A exposição sobre os prefeitos médicos fica no Museu Histórico Abílio Barreto até 11 de setembro e pode ser visitada gratuitamente. Vale também a visita ao Centro de Memória da Faculdade de Medicina, na avenida Professor Alfredo Balena, 190.


Foto: Museu Histórico Abílio Barreto/Ricardo Laf

Soraia Vasconcelos

Soraia Vasconcelos

Jornalista e escritora

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