A morte da Terra

Vai acontecer só daqui a sete bilhões e meio de anos. Mas a notícia bateu em mim como se fosse daqui a sete meses, sete dias, sete horas. Só sei que me senti muito próximo do fim. E isso me inquietou.

A Terra, senhores, está à beira da morte. Isso é o fim do mundo anunciado. E aí sim, precisamos começar, imediatamente, a montar o vasto arquivo de nossa memória – não apenas a oficial, a burocrática, mas a pessoal, a memória de nossos segredos e nossas mentiras, de nossos sonhos e pesadelos, se quisermos deixar um rastro da nossa passagem pela Terra. Quem vai receber esse legado eu não sei! Sei que a única saída possível será uma porta para outra galáxia, para outro mundo, para a realidade paralela, o espelho de Alice, talvez! Precisaremos de uma novíssima arca, futurista, cibernética meta-espacial. Poderemos habitar, definitivamente, o mundo virtual, quem sabe?

Quem trouxe essa surpreendente notícia foram dois cientistas norte-americanos: Peter Ward, paleontólogo, e Donald Brownlee, astrofísico. No seu livro “A vida e a morte da Terra” com pouco mais de 200 páginas, a dupla apresentou a tese de que a vida cósmica, para ser melhor compreendida, pode ser medida como um relógio.

Imaginemos que estamos às 4h30 da manhã, o que, para eles, corresponde a 4,5 bilhões de anos, a idade atual da Terra. Daqui a meia hora, ou seja, depois de 500 milhões de anos, serão 5 horas da manhã e os reinos vegetal e animal terão chegado ao fim. Às 8h, os oceanos e rios terão evaporado. Olhando para baixo, poderemos ver, pela primeira vez, as imensas crateras, os profundos abismos de 10 ou 12 mil metros dos antigos oceanos. Teremos então apenas quatro horas – apenas quatro bilhões de anos – para apreciar essa paisagem inusitada que se descortina aos nossos olhos.

Sim, nestas últimas quatro horas, penso que haverá uma multidão de fotógrafos, repórteres, pesquisadores, curiosos, produtores de empresas internacionais de entretenimento e ecoturismo se revezando no afã de exibir o Grande Rali do Fim do Mundo ou os novos episódios dos seriados futuristas ou reportagens ao vivo das profundezas onde antes habitaram os Titãs, as 50 Nereidas e seus Hipocampos, Poséidon, o Monstro da Lagoa Negra, Mobi Dick, Namor, Hafgufas, Abaias e Akkorokamuis. No céu das cidades, imagens holográficas cronometram o apocalipse anunciado. E o carnaval sob o relógio da Time Square não para.

Estão me acompanhando? Apenas quatro horas nos separam do fim de tudo, porque às 12h, aos 12 bilhões de anos, a Terra será absorvida pelo Sol e não vai sobrar nada e ninguém para contar história. Vamos desaparecer sem deixar vestígio. Nossos átomos e moléculas e nossas almas viajarão ao encontro de Deus, se ele ainda estiver lá.

É triste, mas pelo andar da carruagem, vai ter gente que não terá qualquer chance de conhecer esse belo e machucado planeta. Não vão ver as Muralhas da China, a Floresta Amazônica, o Delta do Nilo, Canoa Quebrada, as Cataratas do Iguaçu, o Coliseu, as Pirâmides, o Partenón, Alexandria, Taj Mahal, a enciclopédia britânica, as mulatas que não estão no mapa. Não poderão vibrar com o centésimo título mundial de futebol do Brasil. E as revoluções sociais, cibernéticas, virtuais? E as férias no Mar da Tranquilidade no balneário lunar? E a transposição molecular, as viagens no tempo, as guerras estelares? Para onde irão nossos heróis, nossos crápulas, nossos deuses e demônios? Nossos monstros, nossos livros e promessas de amor eterno, nossos fantasmas, para onde irão?

Com essa tese, esses dois cientistas tiraram do tempo a ideia de futuro, porque o futuro só existe se for eterno, infinito, para sempre. E se a raça humana/desumana deixar de existir, o tempo desaparece junto. E com ele, o futuro. Tem graça isso?

A Terra vai morrer! Mesmo que cuidemos muito bem dela, ela vai morrer, inexoravelmente. Não vai bastar recriarmos os rios, as matas, o ar, o ser humano e seres imaginários! A Terra vai morrer e não há nada que possamos fazer a respeito. Isso não tem nada a ver com religião, cavaleiros do apocalipse, juízo final, as sete pragas, trombetas de anjos, nada disso. Ward e Brownlee acabam de matar, despedaçar a romântica ideia de que o tempo é eterno e que somos, portanto, igualmente eternos.

Ainda não li o livro e não vi o filme. Vou correndo comprar o meu exemplar. Entender melhor essa alarmante notícia vinda de homens que ficam contando estrelas e inventando grilos para alimentar nossa paranoia. É bom ficar de sobreaviso. Pode ser que Peter e Donald tenham errado nos cálculos. Para menos!

 

TMercador

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Publicitário, poeta, tradutor e clarinetista diletante

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