A prioridade aos filhos, profissão de alto valor

Por indicação de vários amigos, assisti recentemente ao documentário “O começo da vida”, que está disponível em programas de streaming (como o Netflix) e em vários cantos da internet. Se você fizer uma busca no Google, vai encontrar centenas de críticas positivas à obra dirigida por Estela Renner. O filme percorre os quatro cantos do mundo para mostrar a importância dos primeiros anos de vida na formação de cada ser humano. Além das emocionantes perspectivas de pais, pedagogos e psicólogos de vários países, o longa mostra, também, a dura realidade de crianças que trabalham desde cedo e mal sabem definir o que é um sonho.

Há no documentário o depoimento de uma brasileira que, de modo bem especial, me chamou a atenção. Ela descreve a difícil tarefa de “não trabalhar (fora) para cuidar dos filhos”. Relata, ainda, o preconceito que várias mães sofrem por decidirem ficar em casa. O seu argumento é que, quando a mãe decide acompanhar a primeira infância, ao lado da criança, acompanhando-a passo a passo, ela acaba prestando um serviço à sociedade, pois está ajudando a formar um ser humano, contribuindo para mudar uma geração que, com alguma frequência, passou a desconhecer o valor de se desprender do apego ao bem material, bem como de se livrar da fixação na ideia de um “futuro brilhante”, marcado por carreiras oriundas de escolas de “primeiro mundo”.

Não cabe aqui aquele pressuposto machista de que a mulher é protetora e tem o dever de criar os filhos. O argumento da brasileira entrevistada serve, inclusive, para conscientizar os homens. O que está em jogo é que, preocupados em prover bens de consumo para a sociedade, acabamos deslocando os valores humanos para a esfera daquilo que temos, e não para o que somos. Quantos pais gostariam de ter passado mais tempo com os filhos quando eles ainda eram crianças?

Qual é a mãe que não deu o próprio sangue para que os filhos pudessem ter um futuro melhor (financeiramente) do que o dela? A propósito, o fato é que, nessa busca por futuros brilhantes, perdemos a essência humana para formar empreendedores de sucesso. Há aqueles que sequer dizem um bom dia aos seus empregados, que desconhecem as pessoas pelo que elas são, e não pelo que elas têm.

maeÉ claro que o nosso contexto social não permite aos pais e às mães simplesmente a opção de não trabalhar fora de casa, com vistas a cuidar das crianças, até mesmo porque todo o cuidado de que os filhos necessitam requer investimentos financeiros. Por outro lado, não deveríamos subestimar as pessoas que estão parcialmente ausentes de casa, trabalhando arduamente para formar um ser humano justo, íntegro, que conhece o amor e o valor das pessoas.

Há uma profissão que não é bem valorizada pela sociedade: a da mãe que trabalha em casa, priorizando os filhos. Faz parte dos direitos da mulher e do homem poder escolher onde querem estar ou em que querem trabalhar. Ao escolherem ficar ao lado dos filhos, caberia a nós valorizá-los por formar uma geração futura, e não culpá-los por abrirem mão de um salário maior, às vezes destinado a comprar mais e melhores brinquedos para as crianças.  

O ponto é o seguinte. Não se trata de abdicar de uma carreira no mercado de trabalho ou de sacrificar os sonhos pessoais para viver os dos filhos. Trata-se de apenas entender que o sucesso é subjetivo, e as pessoas são singulares, têm suas aspirações particulares, sonham com coisas diferentes.  

O fato de optar por acompanhar os filhos de perto também não é, por si só, uma prova maior um menor de amor. Onde houver amor, os filhos se sentirão amados.  O fundamental, a meu ver, é esta questão: não fazermos julgamentos com base em situações por nós nunca vivenciadas  – como é o meu caso, que nem mãe ainda sou.

A habilidade que mais falta no mercado, hoje, é a honestidade. O bom senso igualmente está em falta no mercado.  São estes os atributos que mais abrem precedentes para que existam os QI (os “quem indica”). E se o pequeno ser humano destes nossos tempos de agora torna-se futuramente um trabalhador honesto e justo, podemos dizer, com toda a certeza, que seus pais tiveram sucesso em suas respectivas carreiras, independentemente das escolhas profissionais que tenham feito.

Cínthia Demaria

Cínthia Demaria

Jornalista, psicóloga e co-fundadora da empresa de marketing digital Tea With Me

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