A sabedoria do velho tropeiro

Reza a mitologia grega que quando o titã Prometeu moldou os seres humanos pendurou neles dois alforjes. Na frente, um acomodava os vícios alheios e, por detrás, pendia o segundo, a colher os vícios pessoais. Por essa razão é que as pessoas enxergam com facilidade os erros dos outros, mas ignoram solenemente os seus próprios.

João Camilo Penna, mineiro de grandiosos serviços prestados a este país, fez uma tocante releitura dessa lenda, à luz da sabedoria dos tropeiros que cruzavam as Minas Gerais na primeira metade do século passado. Conforme a sua versão sertaneja, inspirada na experiência do pai e do avô, o equilíbrio na montaria por longas e penosas jornadas representa uma metáfora do bem viver até o último suspiro de trajetória terrena.

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João Camilo Penna

Os dois sacos que o viajante usa para levar dinheiro e mantimentos ganham outras posições e serventia mais sofisticada na parábola de Camilo. O da esquerda carrega as memórias que juntamos na vida, algumas delas muito pesadas. Já o da direita leva as nossas esperanças de dias melhores e de novas conquistas. A receita do sábio tropeiro para se chegar ao fim da estrada sem quedas evitáveis é regular o volume dos alforjes.

Para isso, o segredo é nunca se esquecer de tirar da esquerda as lembranças amargas acumuladas ao longo do caminho enquanto também se deve sempre colocar à direita novos sonhos por realizar. Com isso, nenhum dos lados fica mais pesado que o outro, o cavaleiro se mantém o tempo todo na vertical e evita ser derrotado pela fadiga.

O engenheiro Camilo completa a filosofia compartilhada por outro genial João, o Guimarães Rosa, lembrando que existem dois tipos essenciais de mineiro, cada qual com qualidades bem próprias: o das Minas e o dos Gerais. O montanhês é sonhador e apegado a estudos eruditos. O do sertão é destemido e desbravador.

A partir desses arquétipos, ele desvenda o porquê de Juscelino Kubitschek ter sido o mineiro-síntese, sempre vitorioso graças à capacidade de combinar características fortes de cada uma das figuras-padrão. Nascido em Diamantina, cidade montanhosa que também é o porta de entrada para do Vale do Jequitinhonha, JK foi excepcionalmente tão refinado quanto ousado.

O construtor de Brasília era um cidadão simples, tal qual os com os quais tomava café à beira do fogão de lenha. Mas também era um elegante exemplar dos anos dourados, recepcionando estrelas de Hollywood em requintados jantares. Obrigado, mestres Joões por estórias como essas, que nos faz honrados de nossas origens.





Sílvio Ribas

Sílvio Ribas

Jornalista

Um comentário em “A sabedoria do velho tropeiro

  • 11 de novembro de 2016 em 17:23
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    Bela analogia Sílvio. Camilo é um sábio mesmo!
    Ao ler pensei naqueles que trabalham nos prédios Minas e Gerais, na Sede do Governo…

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