A vida depois da morte

Setembro é o mês dedicado à campanha de doação de órgãos no Brasil. E me dou conta de que a história dos transplantes em Minas é também um pouquinho da minha história.

Em 1986, quando comecei no jornalismo, uma mineira foi a primeira mulher a se submeter a um transplante de coração no país. Eu era jovem e aquela renovação da vida com promessas de futuro me tocou profundamente. O primeiro boletim médico; o primeiro aceno e o primeiro sorriso, através do vidro de isolamento; o primeiro dia no quarto, depois em casa; o primeiro passeio e até o primeiro aniversário depois do transplante, tudo ficou registrado.

Nos anos seguintes, vieram outras histórias. Várias vezes, testemunhei a angústia e a esperança – maior ainda! – das pessoas que precisam de um órgão.  Acompanhei o empenho das equipes médicas para buscar doações que salvariam uma ou mais vidas como no caso dos transplantes múltiplos. Senti o coração disparar, num misto de ansiedade e emoção, com o médico desembarcando à noite no Aeroporto da Pampulha, carregando órgãos e sonhos numa maleta, passos apressados para chegar a tempo ao hospital. Um coração precisa ser transplantado em no máximo 4 horas!

Participei de reuniões de pacientes transplantados no Hospital das Clínicas, celebrando o renascer, e de encontros de doadores e receptores compartilhando afeto. Noticiei avanços da medicina e a formação do MG Transplantes, em 1992, para monitorar a lista de espera por doações no estado.  25 anos depois, em junho de 2017, são quase 3.500 inscritos. 33 mil no país, de acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos. Lista enorme em números e infinita na dor.

O Brasil realiza transplantes de rim, fígado, coração, pulmão, pâncreas, córnea, medula óssea, ossos, tecidos e células. Uma única doação pode salvar ou melhorar a qualidade de vida de até 14 pessoas que esperam por um órgão ou tecido. Mas faltam doadores por muitas razões. Penso que uma delas fere o meu direito individual.  

A legislação brasileira determina que “A retirada de tecidos, órgãos e partes do corpo de pessoas falecidas para transplantes ou outra finalidade terapêutica dependerá da autorização do cônjuge ou parente, maior de idade, obedecida a linha sucessória, reta ou colateral, até o segundo grau inclusive, firmada em documento subscrito por duas testemunhas presentes à verificação da morte. ” (Lei nº 9.434) E, de acordo com as estatísticas, 44% das famílias negam a doação.

Posso compreender que uma família, no enfrentamento doloroso da morte, não tenha forças para vislumbrar possibilidades de vida, não tenha fôlego para tomar uma decisão desse tipo. O que não posso definitivamente compreender é a alienação do direito de decidir sobre aquilo que é, enfim, nossa propriedade mais particular: nosso corpo.  

Impossível admitir isso, ainda mais depois dos passos que já demos na conquista de outros direitos, simples como tatuar-se, e até mais complexos, que envolvem a sexualidade, por exemplo. Uma sociedade que luta por esses direitos precisa lutar também para que o indivíduo possa deliberar livremente sobre o destino de seus órgãos, após a morte. Lutar pelo respeito ao desejo individual manifestado em vida sem que ele precise ser corroborado por outro.

Diante dessa legislação truncada, as campanhas de doação precisam se desdobrar para alcançar duas metas: primeiro – e já é difícil – convencer a pessoa a ser um doador e, depois, explicar que ela ainda precisa convencer a família a respeitar sua vontade. É o caminho mais longo e difícil para alcançar o que é tão urgente.

Mas, se é assim, então, escrevo para, publicamente, pedir à minha família que respeite meu desejo: sou doadora de órgãos. De todos os órgãos que possam trazer alívio a alguém. Para que as histórias que testemunhei como jornalista possam se repetir. Para que haja vida depois da morte.

Soraia Vasconcelos

Soraia Vasconcelos

Jornalista e escritora

Um comentário em “A vida depois da morte

  • 19 de setembro de 2017 em 07:24
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    Perfeito, Soraia! Tem toda razão. Não é justo. O corpo já era meu em vida, imagine depois que a vida se for. Assim como escolher se quero ser cremada ou enterrada, tenho que poder decidir facilitar o transplante. Também sou doadora!

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