A visão, além do horizonte, dos irmãos Hering

A Companhia Hering foi fundada, em 1880, pelos irmãos Bruno e Hermann. Daí o par de arenques entrelaçado nas etiquetas. Em português, hering é arenque. Os cardumes desta espécie de peixe habitam as águas mais rasas do Atlântico norte.

Bruno tinha gosto pela literatura, enquanto Hermann não tirava os olhos da produção. Chegou a montar uma pequena biblioteca junto ao refeitório da tecelagem. Queria que os operários tivessem o hábito de pegar nos livros. Como o que se almejava raramente acontecia, ele mesmo lia em voz alta para os comensais.

A cavalo, Bruno percorria a região do Vale do Itajaí, parando na venda de cada localidade, fazendo de conta que queria comprar meias ou uma ceroula da marca Hering. Os balconistas – é claro – desconheciam o tal produto. Depois de breve tempo, um caixeiro viajante da Hering cumpria o mesmo roteiro já feito por Bruno Hering, indo também de venda em venda para ofertar as meias e ceroulas dos dois peixinhos. Funcionava.

Blumenau nasceu e prosperou na mescla de alta cultura, espírito comunitário e empreendedorismo. Há diversos registros de empresários do Vale do Itajaí que rotineiramente se dedicaram, ao longo de suas vidas, a cuidar dos negócios e do bem comum, a cidade. Entre eles, os casos mais marcantes vieram do cardume de arenques.

Ingo Hering, neto de Hermann, é um destacado exemplo. Ele presidiu a companhia entre 1971 e 1989. Escrevia para o diário local, o Jornal de Santa Catarina, fazendo questão de pessoalmente entregar seus artigos ao editor. Ia ao jornal dirigindo seu próprio carro. Foi pianista na orquestra de música erudita, vereador e presidente da Câmara Municipal, um dos fundadores da Escola Superior de Música de Blumenau. Empenhou-se o quanto pôde para que fosse erguida a Universidade Regional de Blumenau.

Em dois anos consecutivos (1983 e 1984), as águas do rio Itajaí devastaram a cidade. O país inteiro ficou boquiaberto quando assistiu pela televisão às cenas diárias dos blumenauenses socorrendo-se mutuamente, dia e noite. Algo que os brasileiros jamais tinham presenciado. Quando as águas baixaram, em poucas semanas a cidade estava inteiramente limpa, apesar dos escombros que remanesceram das enxurradas.

Foi em meio a esse esforço coletivo para se debelar o caos que os jornalistas destacados para cobertura “in loco” surpreenderam-se ao ver uma figura que lhes parecia familiar, silenciosamente postada na fila indiana que se formou na tenda de distribuição de leite. Chegaram mais perto. Constataram que era ele mesmo. Ali estava Ingo Hering, presidente da Hering, à espera da cota de leite que cabia a cada um.

Quando Blumenau voltou à sua rotina, com as malharias, as indústrias de cristais, as confeitarias e o comércio lojista reestabelecendo o vaivém nas ruas de paralelepípedos, a cidade quis celebrar o fim das enchentes e a visível reafirmação do espírito comunitário, que inspirou a saga dos pioneiros. Eis o motivo pelo qual a população decidiu recriar, à moda dos trópicos, a festa que Munique realiza anualmente, desde 1810.

Em 1984, promoveu-se a primeira edição anual da blumenauense Oktoberfest. Assim, celebra-se, durante sucessivos 32 anos, a capacidade de os blumenauenses superarem, com a união comunitária, os efeitos dos desastres naturais, como a rebelião das águas do Itajaí.

As comunidades e as pessoas estão sempre envoltas nas cobertas do berço. Quando se quer saber por que Blumenau é assim, basta ir à história da sua formação, desde o início, quando os primeiros 17 imigrantes chegaram àquelas terras, em 1850, sob a liderança e a orientação do filósofo e farmacêutico alemão Hermann Bruno Otto Blumenau.

Na leva dos 17 pioneiros, havia três agricultores. Os demais integrantes do grupo tinham as profissões de carpinteiro, funileiro, ferreiro, veterinário, charuteiro e agrimensor. Alguns casados e com filhos. O casal Guilherme e Minna Friedenreich, respectivamente com 27 e 24 anos, adentrou as matas do Vale do Itajaí com as filha Clara, dois anos de idade, e Alma, de três meses.

O imperador D. Pedro II abriu as portas da imigração dentro do plano de, lentamente, o país se preparar para a abolição da escravatura, legalmente consumada 38 anos depois. Faltariam braços para a lavoura. Os imigrantes passaram ao largo do trabalho servil, sem escravizar ou se tornar escravo. Fizeram suas colônias, vilas e cidades por conta própria, na base da livre iniciativa, na base do todos por todos.

Valerio Fabris

Valerio Fabris

Editor

3 comentários em “A visão, além do horizonte, dos irmãos Hering

  • 17 de março de 2017 em 19:36
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    Bela matéria, meu amigo Valério Fabris….muitas coisas nela me são familiares…abração e parabéns !

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  • 18 de março de 2017 em 17:19
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    Belíssima matéria, caríssimo Valério. Parabéns!

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  • 29 de março de 2017 em 10:50
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    Saudades de ler textos assim, tão corretos e agradáveis, nos nossos veículos de comunicação. Saudade de ti também, Valério Fabris

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