Acorda!

Seus velhos hábitos terão que mudar. Ninguém mais vai à banca comprar jornal pra saber notícias de ontem. (Marcelo Xavier)

Ow, acorda! Você dormiu na passagem do século e ficou aí deitado com a cabeça no século XX, e os pés no XXI. Acorda, vai, levanta. Ou quer continuar assim, atravessado na linha do tempo esperando pelo trem da morte?

Pula daí! Ponha-se de pé no exato lugar onde estão seus pés agora: segunda metade da segunda década do século XXI. Bem-vindo ao futuro!

Se ainda sonha em ter o seu carro, só seu, que lhe dê liberdade de ir e vir, status e poder, desista. Olhe as ruas. Entupidas de milhares deles. Engarrafados, com uma rolha fechando a saída.

Esta é a real: o “american way of life”, louvado no século passado, caducou. Cada um com o seu carrinho, indo pro trabalho, para as compras, para a diversão. Não rola mais. O melhor é você ir se acostumando à companhia de 30, 40, ou muito mais pessoas, em suas viagens urbanas ou a usar mais as pernas – ou os pedais.

Aliás, passa pra calçada. Aí, nessa pista, não dá pra caminhar, é uma ciclovia. A bicicleta é a roda da vez.

Tá assustado com o quê? Ainda não reparou que homens passeiam de mãos dadas, mulheres se beijam nos bancos da Liberdade?

Que os álbuns de família trocaram os retratos por figuras adesivas que se superpõem?

Alguns homens usam saia, qual o problema?

Seus velhos hábitos terão que mudar. Ninguém mais vai à banca comprar jornal pra saber notícias de ontem. Pelo celular, os amigos contam tudo, com imagens ao vivo, e todo o tempo.

“Se ainda sonha em ter o seu carro, só seu, que lhe dê liberdade de ir e vir, status e poder, desista. Olhe as ruas. Entupidas de milhares deles. Engarrafados, com uma rolha fechando a saída.”

Repare como estudar está mais leve. Os estudantes estão livres dos quilos e quilos de livros didáticos. No pequeno tablet levam todos os conteúdos em imagens 3D, animações e hipertextos sem fim.

Porém, as fraudes, os crimes também atravessaram o século e igualmente se reinventaram. A figura com quem você telenamora pela internet pode não ser exatamente aquela beleza toda que chega pelas fotos no computador. Os aplicativos para edição de imagens fazem miséria com a aparência das pessoas.

Drones vigiam, espionam, bombardeiam, filmam, fazem entregas.

Em seus passeios pela cidade, é bom ficar atento. Pessoas em pé passam deslizando sobre rodas, pelas calçadas. Param, viram pra um lado, pro outro, dão ré, sem o uso de nenhum controle de mão. Esses incríveis veículos elétricos individuais, muito em breve, invadirão as ruas. Pode apostar.

Se reparar bem, verá que as pessoas não se falam mais. Cada um segue fechado em sua bolha virtual, digitando a um outro, que pode estar em qualquer lugar do mundo.

Se você faz parte dos injuriados com a recente reforma ortográfica, vai sofrer a cada msg do zap: “E aí, tdo bm?? Só p dizer q gostei mto de v o livro do seu migo aqle dia. Sensa!! Bjs” Frases hiperenxutas, palavras abreviadas até o osso, novíssimas gírias, e nenhum compromisso com a gramática: esta é a linguagem dos internautas, habitantes do planeta virtual.

“Decifra-me ou te devoro”, dizem os robôs que nos atendem no banco, nos aplicativos do celular, no e-commerce global, na compra de bilhetes, na reserva de hotéis, para pedir um táxi, na marcação de consultas médicas, para chegar ao fim do mundo sem erro e pelo melhor caminho, para a previsão do tempo no fim de semana, para estar vivo e ativo no século XXI.

Boa-sorte!

Marcelo Xavier

Marcelo Xavier

Artista plástico, escritor, cenógrafo, figurinista, autor de livros infantis

Um comentário em “Acorda!

  • 6 de janeiro de 2017 em 14:37
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    Muito joia, esta pasta joia. Vou experimentar!

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