Álbum de fotografias

A gente revelava fotos! Rebobinava o filme no quarto escuro, tirava o rolinho da máquina – 12, 24, 36 poses – e levava na loja, lá no centro da cidade. Aí, esperava dois, três dias, até mais, para ver os retratos. E contava as horas, naquela expectativa cheia de dúvida: Quantas foram reveladas? Ficaram boas?

A espera valorizava o momento registrado, aguçava o desejo pelo instantâneo da vida apreendida.  E a alegria se renovava. A gente mandava fazer cópias e ampliações. Deliciosa ilusão de ampliar a felicidade de um instante, de materializar o tempo, de ter o tempo ao alcance das mãos.

Porque a fotografia extrai os fatos da temporalidade. Presentifica o ontem, leva o hoje para o amanhã. Um álbum de retratos é âncora na enxurrada dos anos. A gente quase sempre sorri quando revê as fotos…

Até o dia em que nos deparamos com uma foto embaçada, sem brilho, a imagem se desfazendo, mesmo que a revelação ainda esteja absolutamente nítida, perfeita.  

Isso acontece quando a nuvem está no olhar, quando turva é a visão das lágrimas. Muito mais que o tempo, é a tristeza que desbota e amarela uma imagem.

É assim nos momentos de despedida, quando fica o retrato de quem parte.

E, então, penso na magia das fotos reveladas! Porto seguro para os sentimentos na tempestade dos fatos que se sobrepõem e nos arrastam.

Soraia Vasconcelos

Soraia Vasconcelos

Jornalista e escritora

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