Amazônia

Eu não conheço a Amazônia. Quer dizer, nunca estive lá, porque conhecer, eu conheço muito bem!

Visito a Amazônia desde a infância, em longas viagens pela imensidão verde no mapa da vegetação do Brasil, no Atlas Escolar.  

Quanto mistério, quantos sentidos na palavra selva!

Ouço os bichos… o rastejar da sucuri-preta, a respiração da onça-pintada, aves – araras tão bonitas! E a insetaria: mais de 2 milhões e meio de espécies, li em algum lugar.

Sinto o cheiro úmido da floresta tropical, de plantas que nem conheço. E o gosto dos frutos que nunca provei.

Também não toquei o tronco das árvores, mas posso sentir a textura das veias por onde corre o látex, a borracha, dos seringais do meu livro de História.

Vejo árvores gigantes, as copas lá no alto, inalcançáveis a 50 metros do chão. Galhos e folhas entrelaçados em caminhos que desafiaram os viajantes-naturalistas no passado e que, ainda hoje, só os índios conhecem bem.

O Rio Amazonas, um dos maiores – se não o maior do mundo – não cabe no meu pensamento. Transborda. Fertiliza minha imaginação com personagens fantásticos… o boto cor-de-rosa; Iara, mãe d’água; a vitória-régia, moça índia que virou flor depois de se atirar no rio para abraçar o reflexo da lua.

E imagino a voluptuosidade de outro abraço: do rio com o mar, na pororoca. Sonora, intensa.   

Nunca fui à Amazônia, mas conheço a riqueza da sua biodiversidade, essa palavra grávida de vida. Conheço a importância do patrimônio genético ainda tão pouco estudado, carregado de promessas e esperanças para tratamentos e curas.

E sei, sempre soube, que a Amazônia é o pulmão do mundo. Ideia tão linda… o planeta todo respirando no ritmo da nossa floresta, inspirando e transpirando Brasil.

Nunca estive na Amazônia, mas, infelizmente, já fui muitas vezes às áreas de mineração.

Já vi as rugas da terra devastada. A poeira seca, feito sangue coagulado. A paisagem muda, sem bio nem diversidade. Promessas e esperanças esgotadas pela exploração.

E, então, me surpreendo, me entristeço e me revolto com a possibilidade da morte, enfim, se sobrepor à vida na nossa imaginação, na Amazônia, no planeta. Quando penso no absurdo de um governo disseminar o câncer no coração do Brasil e no pulmão do mundo.

Soraia Vasconcelos

Soraia Vasconcelos

Jornalista e escritora

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