Amiguinhos de papel

As melhores páginas de minha infância estão carregadas de histórias, de lugares e de personagens. Tanto na realidade quanto na ficção, esses inesquecíveis elementos narrativos estavam presentes naqueles dias de muita brincadeira e alegria. No sertão de Minas dos anos 1970 e 1980, as crianças não estavam grudadas em joguinhos eletrônicos na palma da mão ou em telonas planas na parede do apartamento, como as de hoje. Além de correr e pular, elas gostavam também de ler na cama, no sofá e na varanda as publicações impressas que impressionavam mês após mês pela qualidade gráfica e de conteúdo.

Apesar de voltada para o segmento evangélico, Nosso Amiguinho é uma boa lembrança da minha trajetória católica em Curvelo. Publicada há quase 70 anos pela Casa Publicadora Brasileira, editora responsável por centenas de títulos ao longo de sua existência, a revista infanto-juvenil de maior tiragem no Brasil, com mais de 130 mil exemplares, encantou a mim e aos meus irmãos.

Mortadela e Salaminho

Adorava receber mensalmente em casa as aventuras dos garotos Cazuza (louco por futebol), Kiko, Noguinho (o líder), o Professor Sabino (o sabe-tudo) e as meninas Luíza e Gina. A turminha também tem ainda o seu mascote, o cãozinho vira-latas Azeitona. Lembro com nitidez do representante comercial da editora, um senhor do interior paulista, com óculos de aros grossos, pele clara e cabelos bem penteados, que nos visitava anualmente para renovar a assinatura da revista e nos oferecer outras. Esse caixeiro-viajante da cultura fez mais de uma dezena de aparições no meu lar e de conterrâneos.

O legal de quadrinhos que curtimos em Nosso Amiguinho e outras do tipo eram as seções didáticas, de curiosidades e de passatempos. Não havia intenção explícita da revista de fazer proselitismo, de doutrinar religiosamente. Ela apenas nos ensinava cidadania, ecologia e tolerância, particularmente o respeito à diversidade racial. E tudo isso com muita diversão.

Saindo dos tempos de menino e chegando à adolescência, minha mãe assinou pra gente outras revistas da Casa, como a Vida & Saúde (com dicas de uma vida plenamente saudável, tema tão em voga hoje) e Mocidade (um produto voltado aos temas mais palpitantes para a juventude da época, como namoro, Aids e uso de drogas).

Nosso Amiguinho, tradição na Igreja Adventista, continua sendo um produto de qualidade e sucesso para o público infantil, com mesmo formato e desenhos atualizados. Meu tempo dedicado às minhas leituras domésticas na época de ensino fundamental se dividia também entre gibis de Recruta Zero, de Os Trapalhões, do Condorito, da dupla de detetives Mortadelo & Salaminho e das adptações de super-heróis televisivos, além das tirinhas dos jornais (Zé do Boné, Fantasma e Mandrake).

Sempre festejei as novidades de Nosso Amiguinho trazidas pelos Correios e as aventuras à espera lá na banca de jornal. Muito do que sei e sou devo a esses encantadores materiais. Saudade.

Sílvio Ribas

Sílvio Ribas

Jornalista

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