As coisas findas ficarão…

Trinta anos da morte de Carlos Drummond de Andrade.

17 de agosto de 1987. Os jornalistas correram a Itabira. Foi uma das minhas primeiras reportagens de repercussão nacional. Fazia muito tempo que ele não voltava à cidade – 33 anos, eu acho. A imprensa queria mostrar a terra natal e ouvir o lamento dos conterrâneos.

Pegamos a estrada com pressa, aquela BR 381 cheia de curvas e perigosa. O prazo era curto para registrar tudo e voltar para o jornal da noite, naqueles tempos sem internet, celular e helicóptero. Uma correria para mostrar qualquer coisa que tivesse relação com Drummond.

Na casa onde ele passou a infância, dois canteiros em forma de coração, dizem que idealizados por ele e pelo irmão. O jornal O Cometa exibiu orgulhoso edições com poemas que ele enviava especialmente para a publicação. A emissora de rádio trocou a programação normal por versos. Fotógrafos e cinegrafistas voltavam os olhos especialmente para a paisagem triste da mineração que tanto inspirou quanto afastou o poeta de Itabira. Lá no alto da cidade, gravei com o livro de poemas na mão:

Mesmo a essa altura do tempo,

um tempo que já se estira,

continua em mim ressoando

uma canção de Itabira”.

Estar em Itabira naquele dia me aproximou de Drummond. Na televisão, gostava de citar versos dele quando o tema da reportagem permitia. Os poemas ganharam novos sentidos, se inscreveram em vários momentos da minha vida. E me assaltam no dia a dia. Infância é tão doce! José, tão forte! Memória, tão presente:

“Mas as coisas findas,

muito mais que lindas,

essas ficarão”.

E hoje, uma impetuosidade audaciosa me põe a escrever para Drummond.

Não nasci em uma cidadezinha qualquer, mas na capital e aqui ninguém vai devagar. Janelas trancadas pelo medo já não olham mais. Bananeiras e laranjeiras desapareceram há muito. Mas é tudo tão lindo quando florescem ipês, quaresmeiras e flamboyants! Nesses dias, a vida nem parece tão besta.

A minha história também é mais bonita do que a de Robinson Crusoé. Meu pai não sabe montar a cavalo, mas – aos oitenta e sete anos – segue firme, campeando. Minha mãe nunca teve muito tempo para ficar sentada cozendo, mas fez uma roupinha de boneca pra mim e um menino de pano para o meu filho.

Também faço do tempo minha matéria e quero seguir de mãos dadas. As pedras no meio do caminho vou deixando pra trás. E se festa acaba e se a luz se apaga e se não existe porta e se Minas parece que não há mais… há sempre versos e utopia.

A rima é solução:

“Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração”.

Soraia Vasconcelos

Soraia Vasconcelos

Jornalista e escritora

2 comentários em “As coisas findas ficarão…

  • 9 de agosto de 2017 em 00:08
    Permalink

    Vc sempre foi e continua sendo gente fina.Nao poderia não gostar de Drummond.Lembra daquela quando entrou no bonde e viu um “monte” de pernas femininas a sua frente : Pernas longas, pernas curtas,pernas retas,pernas tortas,pernas finas, pernas grossas, pernas feias , pernas lindas—, pra que tantas pernas meu Deus!

    Resposta
    • Soraia Vasconcelos
      14 de agosto de 2017 em 08:57
      Permalink

      Obrigada, Alonso. Drummond é sempre surpreendente… e intenso. Um abraço

      Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *