Banca Carangola – histórias de um jornaleiro

As bancas de jornal são quase um objeto em extinção junto com a também quase extinção do impresso. Mas elas foram, e algumas delas continuam a ser, prateleiras de várias histórias. Este espaço tem a pretensão de contar algumas dessas histórias, todas elas ouvidas e vividas por um jornaleiro. Bem ali, na esquina da Congonhas com Carangola. Os personagens podem ser de ficção, mas talvez as histórias sejam reais… ou vice-versa.” (Hugo Teixeira – jornaleiro)

O que você acha do Gorbatchov?

(Parte 1)

Essa quem me contou foi um jornalista que mora por aqui. Aliás, há vários jornalistas por aqui. Eles gostam de conversar. Buscam o pão na Padaria Santana e depois vêm aqui. Não sei se pelo ofício solitário de lutar com e pelas palavras, mas eles gostam de conversar. Acho até que me imaginam meio colega. Uns jornalistas. Outros, jornaleiros. Todos lidando com as páginas.

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Oscar Niemeyer

Pois bem. Me contou o jornalista que a Câmara Municipal de Belo Horizonte já foi um local de gente muito interessante. Lá teve até um presidente que era do Partido Comunista, o antigo partidão. Elegeu-se pelo PCB logo após o fim da ditadura. Com a redemocratização, foram elaboradas as constituições federal e estaduais. Nos municípios foram preparadas as leis orgânicas de cada cidade.

Às vésperas da promulgação, o vereador comunista chamou um assessor e disse a ele que o “camarada Niemeyer” tinha doado um projeto de monumento para marcar a finalização da nova lei e que era preciso buscá-lo no Rio de Janeiro, onde estava o escritório do arquiteto. Era preciso pegar o avião no dia seguinte e encontrar com o “camarada”, ouvir as instruções e trazer o desenho. “Pois bem”, me disse meu amigo jornalista. “Ordem dada, ordem cumprida”, e lá se foi o assessor para o Rio de Janeiro.

Chegando em Confins, chamou a atenção a manchete do Jornal do Brasil, o antigo e saudoso JB. “Morreu Prestes”, em corpo grande e todo em caixa alta. “Puxa”, pensou o assessor. E agora, o que fazer, pensou consigo mesmo. Avião já quase saindo, não tinha mais jeito, nem celular, que ainda não fazia parte de nosso mundo. Foi-se. Preocupado, mas foi-se.

Chegando no Santos Dumont, providenciou um interurbano. Ligou para o vereador-presidente-camarada e contou tudo. O parlamentar, como homem bem informado que era, já sabia da notícia e recomendou que o plano seguisse como o planejado. O tempo estava correndo e a cerimônia de promulgação seria daí a alguns dias e era preciso que o projeto fosse apresentado.

O trajeto do aeroporto até Copacabana foi percorrido de táxi. O orgulho do assessor era indisfarçável. “Preciso ir até Copacabana, na Avenida Atlântica, no número tal onde fica o escritório do Oscar Niemeyer”, disse ele para o motorista. “Sabe em que altura fica?”, indagou.

O motorista, virando-se para trás, disse, ainda com mais orgulho, que sim. “Pode ficar tranquilo que sei onde é”, afirmou com segurança. E pra lá se dirigiram os dois, ambos muito cientes da importância do papel de cada um. Silenciosos um com o outro. Cada qual mergulhado em seus pensamentos. Um se lembrando de histórias de luta de um outro tempo. O outro pensando como seria a conversa que iria ter com o arquiteto.

O que você acha do Gorbatchov?

(Parte 2)

Já em Copacabana, sem nenhuma hesitação pelo caminho, o carro “de praça” diminuiu a velocidade e estacionou em frente a um belo edifício, daqueles em frente à praia, e disse o motorista com toda firmeza: chegamos. Conforme orientações recebidas, era preciso se apresentar ao porteiro, dizer onde ia e receber a permissão para entrar. Pelo elevador, tinha que ir até o último andar e subir mais um lance de escada a pé. E finalmente chegar lá.

Depois de encontrar a entrada, na recepção estava uma senhora, sentada à mesa da secretária. Bom dia recíprocos e uma breve apresentação pessoal: vim de BH para buscar o projeto do monumento para a Câmara Municipal, disse o assessor. Quem me enviou foi o camarada -presidente-vereador. Ah, sim. Doutor. Oscar acabou de chegar do hospital. O senhor já soube da notícia? Sim, Soube. Fiquei muito triste.

Um momento, por favor. Retirou-se e, após alguns instantes, retornou solicitando que entrasse. Um belíssimo lugar, me disse o jornalista sobre o que o assessor descreveu. Uma vista linda do mar, janelas formando um semicírculo. Mais para o canto, à esquerda, um nicho de criação. De lá veio o arquiteto. De pronto, a evidência do abatimento. Bom dia. Bom dia. Em pé, assim mesmo, informal, disse logo. Hoje é um dia muito triste. Morreu meu grande amigo. Eu soube, doutor Oscar. Sinto muito. Todos sentimos muito.

Quero que me desculpe. Os últimos dias foram muito difíceis. Não tive como preparar os desenhos. Você peça desculpas ao vereador. Melhor marcarmos uma outra data. Claro. Sem nenhum problema, doutor Oscar.
Segundo contou o jornalista, a história prosseguiu com o assessor saindo do escritório para a recepção. Decidiu pedir à secretária que tentasse remarcar o voo para que não tivesse que esperar até mais tarde para retornar a BH. A secretária foi procurar o número; eis que sai lá de dentro o arquiteto. Espere um pouco. Tinha nas mãos um croqui. Entre e venha ver o que fiz, disse Oscar Niemeyer.

Foi até o escritório e se sentou a convite do anfitrião, que abriu o croqui por sobre a mesa. Você é do partido? Sim senhor. Desde os 17 anos. Entrei no partido ainda secundarista no Colégio Estadual Central. Aquele que o senhor projetou. Estudei no prédio régua, lembrou rindo. O arquiteto também riu. E o que você acha do Gorbatchov, disparou Niemeyer para sondar em que posição o assessor estava em relação à disputa interna entre os pró-perestroika e os contra o movimento de renovação, deflagrado pelo líder russo.

O jornalista conta que o assessor ficou preocupado de expressar uma opinião que azedasse o momento. Preferiu ser econômico na resposta. Acho que ele está cumprindo um grande papel, respondeu. A réplica veio rápida: eu não acho não, disse o arquiteto. E ficou por isso mesmo. Na sequência, Doutor Oscar deu instruções sobre como contratar a única empresa que fazia os cálculos de suas obras e pediu que assim que este detalhe estivesse resolvido que entrássemos em contato novamente. Despediram-se muito afetuosamente.

Hugo Teixeira

Hugo Teixeira

Jornaleiro

Um comentário em “Banca Carangola – histórias de um jornaleiro

  • 3 de novembro de 2016 em 12:11
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    Imagino o quão impressionante deva ter sido o encontro com esse grande arquiteto, ícone da área em nosso país, que se tornou mundialmente famoso (afinal foi o primeiro brasileiro a ganhar o prêmio Pritzker) pelas grandes obras as quais projetou, eternizadas em nosso solo.

    Pude, em determinados e deliciosos momentos, apreciar alguns desses monumentos (uma pessoa muito especial me explicou as peculiaridades de tal escultura, em uma prazerosa noite de outono, nos jardim de tal Câmara – a da história em questão).

    Ademais, descobri em viagem à Brasília – além de ser jornalista, estou me formando em Direito pela PUC-Minas, que o prédio da Procuradoria Geral da República foi projetado com a intenção de estar flutuando entre os prédios, não menos brilhantes, do STF, STJ, TSE e TCU. A sensação de estar flutuando, segundo o guia da referida visita, mostra sua independência em relação aos demais poderes, sendo isento na defesa dos interesses sociais e individuais indisponíveis, da ordem jurídica e do regime democrático de Direito, após a promulgação da Constituição de 1988.

    Coincidência ou não, Niemeyer era neto do ex-Procurador-Geral da República Antônio Augusto Ribeiro de Almeida.

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