Bar, doce bar

Ronda, de Paulo Vanzolini, é uma das minhas canções preferidas. Ela me transporta à época em que costumava atravessar a urbe, noite adentro, em busca de recantos boêmios para depois embarcar nos sonhos. Essa minha procura interminável passou pelo Mercado Municipal de Floripa, pela avenida São João de Sampa e, sobretudo, pelas ladeiras de BH.

Na capital mineira, que “não tem mar, mas tem bar”, alcancei os círculos etílicos mais variados, as mesas mais sorridentes e os garçons mais amigões. Seja com o espírito em festa, seja com os cotovelos doloridos, foi na Belo Horizonte do século passado que encontrei recintos folclóricos para beber, comer e interagir com pessoas. São santuários de uma cultura tipicamente belo-horizontina.

Pelo retrovisor de minhas jornadas noturnas enxergo endereços curiosos da capital mundial dos botecos, que espelhavam a personalidade dos donos. O Loureiro’s, da rua Java, no bairro Nova Suíssa, era o espaço criativo de uma família. Mistura de casa e bar, trazia decoração extravagante e uma inusitada piscina dentro do salão. A fachada com dois grandes copos de chope em fibra de vidro dava para a garagem e dois banheiros unissex com cortinas de contas acrílicas no lugar de portas.

Nas paredes estavam pendurados retratos antigos, cabeça de boi empalhada, símbolos católicos, mapas escolares, espadas medievais e bibelôs. Do teto, partiam frascos plásticos e placas bem-humoradas do tipo “minha vida é um litro aberto”. Loureiro, o proprietário, nos brindava com drinques exclusivos e histórias para cada detalhe de sua exótica casa-bar.

Lá, ele vendia garrafa de pinga e emprestava telefone sem fio para a clientela fazer breves ligações locais. Fora do cardápio, constava pizza em prato fundo e o arroz que sobrou do jantar dos anfitriões. A churrasqueira tinha até um nome: “Boi nos Aires”.

Minha lista afetiva de estabelecimentos tinha ainda o roqueiro Pit Bull Café, do italiano Sergio. Além da grande bandeira tricolor do país em forma de bota, o espaço era ornado com objetos de arte moderna, ícones pop e várias versões de sua logomarca canina. Já no beatlemaníaco Obladi, último bar do quarteirão do extinto Lulu, na rua Leopoldina, Santo Antônio, o dono Roberto deixava os frequentadores levarem CDs para serem tocados. E o tira-gosto dele era Obladá de bom.

O point Chef Túlio (foto no alto), na praça Estêvão Lunardi, perto do Independência, no Horto, era o espelho do dono. De bermuda, brinco e dólmã de cozinheiro, o próprio esbanjava simpatia e sabedoria culinária. Seu internacional botequim oferecia pratos sofisticados de nomes saborosos, como frango mafioso e asas vulcânicas. Chefia: a saideira e a conta! Hora de ir para casa sonhar.

 

Sílvio Ribas

Sílvio Ribas

Jornalista

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