Buscas intermináveis

O escritor Mia Couto ilustra um de seus contos com a seguinte afirmativa: “Minha sabedoria é ignorar as minhas originais certezas. O que interessa não é a língua materna, mas aquela que falamos mesmo antes de nascer.” Suas palavras têm uma profundidade encantadora. No cotidiano da vida a maturidade nos conduz ao questionamento dos rigores da vida social, o que nos leva a buscar novos caminhos. E, nessa dialética, vamos buscando e nos reencontrando.

Guimarães Rosa disse que o real está na travessia. Faz sentido. Rosa, muito provavelmente, pensou na travessia como uma busca que gera reencontros. As travessias são buscas intermináveis, feitas de movimento, de dinamismo e, por isso, enchem de sentido os dias.

As buscas são propulsoras de mudanças. E as mudanças, além de exigirem coragem, traduzem a dor e a beleza da superação. Para o psiquiatra e psicanalista Viktor Frankl, “mudar a si mesmo significa renascer maior que antes, crescer além de si próprio”.

Não obstante os avanços tecnológicos da atualidade, as pessoas estão insatisfeitas. Querem encontrar o novo ou ressignificar o velho. Desiludidas, inquietas, almejam outros caminhos. Arriscam. Acertam. Erram. Seguem em frente, com um desejo enorme de vislumbrar novas perspectivas, sobretudo em relação ao autoconhecimento, às relações interpessoais e sociais.

Por isso reinventam os seus passos, reabastecem seus sonhos e reiniciam suas procuras. Enchem salões para escutar os seus gurus, assistir filmes ou ler um bom livro, na expectativa de encontrar o que possa trazer alento e conforto aos seus corações inquietos. Muitas vezes buscam sem saber o quê e saem para escutar pessoas de referência na mídia na esperança de que digam algo que mude o rumo e desperte o entusiasmo adormecido. No fundo querem paz. Vivem esperando dias melhores, como canta o Jota Quest.

Muitos de nós vivemos em buscas intermináveis. O mais curioso é que muitas vezes o que procuramos está dentro de nós ou está nas coisas simples da vida, tais como gestos de gentileza, de justiça social e respeito à dignidade das pessoas.

Seja lá onde estiver, o importante é não nos deixarmos levar pelo comodismo e continuar, de forma corajosa e intensa, a buscar. E sempre ter a certeza de que ao encontrarmos parcial ou totalmente o que buscamos, novas buscas surgirão. Não resta dúvida de que esse é o lado belo e fascinante da vida.  

Aristides José Vieira Carvalho

Aristides José Vieira Carvalho

Médico, mestre em medicina, especialista em clínica médica e em medicina de família e comunidade, professor do curso de medicina da FASEH e coordenador de Residência Multiprofissional da Atenção Básica/Saúde da Família da Secretaria de Saúde de Belo Horizonte.

8 comentários em “Buscas intermináveis

  • 15 de dezembro de 2016 em 21:48
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    Mestre, boa noite!
    Pertinente. Muito interessante! Quisera eu só estar próximo de pessoas que ignorassem suas certezas e se permitissem buscar o conhecimento e o autoconhecimento. O mundo dessas pessoas não estaria estagnado e daí, talvez, nosso mundo ao redor estivesse melhor.
    Como é boa e salutar essa busca!
    Como é bom crescer podendo enxergar nossa pequenez diante de tão imenso caminho.

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  • 15 de dezembro de 2016 em 21:50
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    Sabias e profundas reflexões

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  • 15 de dezembro de 2016 em 22:17
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    Ótimo Texto Senhor Aristides,temos que Buscar todos os dias nossos objetivos e termos a certeza de alcança-lós,como o Senhor Disse a Busca está dentro de nós ou nas coisas simples da vida,Se Deixarmos de Buscar a Gente a passar a desacreditar que somos capazes de irmos onde Sonhamos chegar.Parabéns Pelo Texto que Deus continue iluminando e Abençoando o Senhor sempre.

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  • 16 de dezembro de 2016 em 21:04
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    Parabéns pelo texto, continue com suas reflexões ,nos faz muito bem .

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  • 17 de dezembro de 2016 em 11:02
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    Excelente reflexão Tidinho! É a realidade mesmo do ser humano estar sempre inquieto. Acredito que a renovação das nossas buscas nos ajuda a dar sentido às nossas vidas, pois todos precisamos de objetivos. Grande abraço.

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  • 17 de dezembro de 2016 em 17:40
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    Isso mesmo, doutor. Não é por acaso que a filosofia anda tão popular. Muita gente procura sem saber o quê. Parabéns.

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  • 21 de dezembro de 2016 em 15:47
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    Aristides, amei o texto, em especial a parte que fala: “Seja lá onde estiver, o importante é não nos deixarmos levar pelo comodismo e continuar, de forma corajosa e intensa, a buscar.”

    Todos os dias a minha oração a Deus é que eu possa fazer a diferença na vida das pessoas.

    E, abrindo um parênteses, posso dizer que você não só fala, mas vive o que fala!

    Parabéns!

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  • 23 de dezembro de 2016 em 15:52
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    Aristides,

    Nossas buscas são constantes, nesse eterno recomeço que é a vida,é necessário vivermos o momento presente…

    Muito bom!

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