Câncer de próstata: tratar ou não tratar?

Simbolicamente, 17 de novembro é o dia mundial de combate ao câncer de próstata. É a segunda causa de óbitos por câncer em homens, superado apenas pelo de pulmão. Neste artigo, o médico Paulo Timóteo relata os caminhos a serem tomados no caso de diagnóstico de câncer de próstata inicial.

A próstata é o maior tecido sexual acessório, pesando aproximadamente 20 gramas, situada na pelve masculina em torno de uma grande porção da uretra posterior. Ainda é desconhecida a função biológica da próstata no homem adulto. 

O câncer de próstata é o segundo tipo de neoplasia maligna mais comum entre os homens, ficando atrás apenas da doença no pulmão.  A testosterona é o principal hormônio androgênio masculino produzido pelos testículos e responsável pelo desenvolvimento, crescimento e funcionamento da próstata. De acordo com a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, em 2012, em todo o mundo, cerca de 1,1 milhão de casos foram diagnosticadas, com 307 mil mortes  pela enfermidade.

O tratamento do câncer de próstata ainda é controverso para muitos especialistas, pois pode trazer efeitos indesejáveis como incontinência urinária, impotência, problemas intestinais causados pela radioterapia ou crescimento das mamas (ginecomastia) pela ação hormonal dos estrogênios usados na terapia de supressão androgênica. O diagnóstico de um câncer de próstata também pode resultar em ansiedade e depressão com consequente piora da qualidade de vida. A sobrevida em cinco anos passou de 69%, em 1975, para 100% em 2005.

A dúvida principal e mais recente surgiu há alguns anos, quando ficou no ar a pergunta: Tratar ou não tratar? Em setembro foi publicado um artigo numa conceituada revista médica norte-americana (The New England Journal of Medicine, 14/09/2016:10,1056) que tentou trazer mais luz a essa discussão.

Basicamente, após o diagnóstico, a neoplasia maligna de próstata pode ser tratada com cirurgia ou radioterapia, associada ou não a um curto período de supressão androgênica, a terapia para inibir a ação da testosterona. A terceira alternativa seria apenas acompanhar a evolução do paciente, através de exames clínicos e dosagens do PSA (Antígeno Prostático Específico).

Nesse estudo foi monitorado por 10 anos um grupo 1.643 homens, de idade entre 50 a 69 anos, com câncer de próstata inicial com diagnóstico confirmado por biópsia, após exame de PSA alterado, limitado à glândula e sem ainda ter se espalhado por outros tecidos distantes (metástase). Os resultados mostraram que os homens que foram apenas observados clinicamente foram significativamente mais atingidos pela progressão da doença metastática avançada do que os que foram operados ou que receberam a radioterapia.

Observou-se também uma tendência para a diminuição da morte por câncer de próstata entre os homens operados ou submetidos a radioterapia. 

Se o objetivo é evitar o câncer de próstata metastático e os efeitos colaterais de seu tratamento,  a opção por não tratar por cirurgia ou radioterapia  deve ser considerado apenas para os homens com uma expectativa de vida menor de dez anos em função de outras enfermidades.

Finalmente, foi observado que a radioterapia associada à terapia de  privação de androgênio mostrou resultados melhores do que a cirurgia, podendo ser a melhor escolha para homens saudáveis de 65 anos de idade ou mais velhos e com câncer de próstata inicial. 

Embora, a publicação tenha sido considerada importante no tratamento atual do câncer de próstata, não trouxe praticamente nada de realmente novo ao conhecimento científico, apenas fortaleceu os argumentos para que o homem mais velho, com outras enfermidades, faça a opção de não se submeter ao tratamento cirúrgico ou radioterápico com ou sem supressão da testosterona, pois isso não aumentaria a sua expectativa de vida.

Paulo Timóteo Fonseca

Paulo Timóteo Fonseca

Médico da Saúde da Família

Um comentário em “Câncer de próstata: tratar ou não tratar?

  • 22 de novembro de 2016 em 19:07
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    Texto esclarecedor e reflexivo. Bom tema escolhido. Parabéns.

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