Carpe diem na Savassi

Criatividade e arrojo somados ao conhecimento e temperados por inquestionável bom gosto são os ingredientes que fazem valer a pena o investimento de uns poucos minutos. É quanto basta para transformar quem passa apressado pelo cruzamento da Rua Tomé de Souza com a Avenida Cristóvão Colombo em um privilegiado observador.

Bem plantada em um semicírculo de pedra, está ali uma escultura que nos obriga a refletir sobre um dos vetores mais importantes de nossa vida: o tempo. À primeira vista, lembra uma nave espacial de formas aerodinâmicas e com um bico ousado, erguido como a garantir que sua trajetória está em ascensão.

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Fotos de Pedro Lobato

Seria essa uma representação da aventura do homem em busca de seu futuro? Uma evocação à coragem, à inteligência, à renúncia ao comodismo?

Chegando mais perto, o premiado pedestre daquele trecho da Savassi verá que, na verdade, a tal nave é um inesperado relógio do sol. Trata-se de “equipamento” desenvolvido pela observação e empreendedorismo dos babilônios, povo da antiguidade que habitou o atual Iraque.

Seria, então, uma escultura que retrata a volta ao passado? Mas, em plena era dos computadores, será que esse arcaico instrumento funciona? Funcionou para quem por ali passou no primeiro domingo deste novembro chuvoso, por volta das 10 horas. Mais precisamente, aos cinco para as 10 da manhã. Foi quando o sol resolveu dar uma espiada na terra por entre as nuvens. A sombra do marcador (o bico da aeronave) foi precisa: 9h55. Acertou, pois estamos no horário de verão.

Fez, portanto, mais do que marcar a hora certa. Lembrou-nos que o homem é, no máximo, o inventor das horas (inclusive as do horário de verão), nem de longe é o senhor do tempo.

Mais um minuto de observação e será possível notar que o intrigante relógio do sol não apenas está em frente a um edifício, como faz parte de seu inovador projeto. Nascido na prancheta do genial arquiteto mineiro Júlio Araújo Teixeira, o prédio recebeu o nome Khronos. Já a precisão do relógio se deve aos cálculos do professor Péricles Silva.

Khronos é a entidade grega do tempo, aquele que vem antes e continua depois de tudo, inclusive de nós, pequeninos mortais. O relógio do sol da Savassi está lá desde 1985 (31 anos) e nem sempre é percebido pelos passantes. Mas quem “gastar” uns minutinhos com ele terá, além do prazer de apreciar uma bela criação, o lucro de levar consigo uma preciosa lição: nosso tempo é escasso e, por isso, valioso. Melhor gastá-lo com coisas boas e úteis. Disso já sabiam os romanos: “carpe diem”, aconselhavam eles.

Pedro Lobato

Pedro Lobato

Jornalista

2 comentários em “Carpe diem na Savassi

  • 16 de novembro de 2016 em 21:43
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    Bom texto, Pedro. O tempo.., senhor de todos nós!!!

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  • 17 de novembro de 2016 em 13:48
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    Lindo texto este. Reflexivo dosado com elegância,sutileza,sensibilidade,humildade ao concluir :
    realmente não somos nem de longe senhores do TEMPO.

    Resposta

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