Carro oficial, uma praga brasileira




Não se sabe quantos são e muito menos quanto custam aos brasileiros. O certo é que o Brasil ostenta uma das maiores frotas de carros oficiais do planeta. Ao contrário do que ocorre em países como a Suécia e a Noruega, onde carros para políticos e autoridades é uma exceção, aqui é regra.

Nesta sexta-feira (11), numa postagem em sua página no Facebook, o jornalista André Trigueiro pôs o dedo nessa ferida. Ele disse não acreditar em nenhum plano radical de contenção de despesas públicas que não inclua a desativação da frota de carros oficiais.

Trigueiro, que é editor-chefe do programa “Cidades e Soluções”, da GloboNews, e professor de jornalismo ambiental da PUC-Rio, entende que, mesmo em tempos de bonança econômica, os carros oficiais (com seus motoristas, cotas generosas de combustível e custos de manutenção financiados pelos contribuintes) são “uma excrescência moral, um resquício abominável de um privilégio que, com raras exceções, seria justificável”.

Para o jornalista, no Estado do Rio, antes de se anunciar a taxação de aposentados e pensionistas, corte de aluguel social, entre outras medidas sem precedentes (e possivelmente inconstitucionais, segundo ele), o governo deveria ter desativado a numerosa frota de carros oficiais que servem aos secretários de estado, deputados estaduais, servidores do Judiciário e de “todos os numerosos agregados espalhados por vários órgãos, repartições e autarquias”.

Ele sugeriu que, “no embalo desse movimento em favor da sensatez”, seja suprimida também a frota à disposição dos vereadores de todos os 92 municípios fluminenses.

“Que peguem táxi, uber, bicicletas, sigam a pé ou (por que não?) transporte público. Quem sabe assim o Brasil finalmente possa avançar na agenda da mobilidade, com mais `autoridades´ sentindo na pele a realidade difícil por que passa quem lhes sustenta”, finalizou Trigueiro.

Nórdicos dão exemplo

De acordo com informações publicadas no site da Rede Nossa São Paulo, na Noruega há apenas 20 carros à disposição do governo e somente o primeiro-ministro tem um veículo exclusivo. Usar transporte público é compromisso dos políticos eleitos em Oslo, Bergen e Tromsø, as três maiores cidades do país.

Na Suécia, sequer o primeiro-ministro tem direito a carro oficial. As autoridades suecas podem, no máximo, solicitar reembolso para viagens oficiais ou se residirem a 70 quilômetros ou mais da capital, Estocolmo. Os parlamentares têm as seguintes opções: usar o próprio carro (com reembolso de combustível), táxi ou transporte público. Prefeitos, se solicitarem verba para transporte, terão o valor descontado do salário.

Na Dinamarca, ministros, secretários e generais podem comprar um carro sem o custo de impostos. O veículo pode ser substituído após quatro anos de uso ou 150 mil quilômetros rodados.

É bem verdade que os países nórdicos primam pela boa gestão da coisa pública, mas há bons exemplos de sensatez no uso de carros oficiais em outros países europeus, como na Holanda, onde parlamentares não têm direito a essa mordomia. Caso queiram utilizar um veículo de propriedade do Estado, precisam arcar com a despesa. Em Amsterdã, só o prefeito tem direito a carro oficial.

Em Londres, as regras da prefeitura e da London Assembly (equivalente londrino à Câmara dos Vereadores) são bem claras quanto à ausência de motoristas e carros oficiais: “O prefeito e os membros da London Assembly têm o compromisso de usar o transporte público”, diz um documento da instituição.

Na capital britânica, o prefeito e os vereadores recebem um vale-transporte anual válido para ônibus, trens e metrô. Ao tomar posse, todos são avisados de que o uso do transporte público é quase uma das obrigações do cargo.

Ronaldo Lenoir

Ronaldo Lenoir

Editor

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