Clarão misterioso

Após largar o seminário, Vicente Torres se converteu em homem da ciência, sem, no entanto, abandonar a sua fé. Passou a maior parte de sua longa e laboriosa vida em Ibirité, no cinturão verde da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Lá, ele cultivou carreira, família e gerações de admiradores. Meu tio-avô e guru confirmou com seus ensinamentos a vocação hortifrutigranjeira da cidade que o agraciou com o título de “professor” e onde é hoje nome de rua.

Tio Vicente ensinava a todos como plantar hortaliças com técnicas precisas e adubo orgânico, sempre honrando a biodiversidade. Era o intelectual que conversava de igual para igual com analfabetos e um ecologista sem radicalismos. Cientista com calos nas mãos e dedos fincados na terra, o educador mineiro singrava os ares com os olhos.

O professor Vicente Torres

Por trás de severos óculos, a figura esbelta e intrépida do meu padrinho colecionou muitas histórias brotadas no convívio com lavradores. Minha favorita é a protagonizada por um artefato vítreo com diâmetro de pizza de oito pedaços. A grossa lente revelada pelo clarão misterioso vindo de barranco do sítio do professor gerou alvoroço nos anos 1990. De início, parecia ser a razão para a série de focos de incêndio na propriedade, domados por mutirões.

Mas o disco côncavo ainda ampliaria o imaginário coletivo ao despertar especulações sobre sua origem. Teve gente que aventou hipótese de a peça ter se desprendido de aviões de reconhecimento da Segunda Guerra Mundial. Outros falavam de indícios de agrimensura de bandeirantes modernos ou de espionagem de potências estrangeiras. Por fim, a peça plano-convexa de borda fina quase fez Ibirité rivalizar com Varginha na pecha de Roswell brasileira.

A lente produzia realidades alternativas para os que enxergam nela vestígio de nave extraterrestre pousada no meio do capoeirão, ferramenta militar ou mesmo relíquia do plano espiritual na forma de gigantesca lágrima cristalizada. O fato é que o município, que tem como atrativo a Serra do Rola Moça, palco de belo por do sol, guarda até hoje um segredo de cinco quilos e variadas inspirações. Do céu, Vicente se diverte com todas elas.

A refração da lente dada por sua superfície cristalina segue formando imagens surreais e ilustrando saborosas lendas urbanas. E na sua curvatura sobre um eixo comum ainda repousa a fria e desconhecida verdade. O meu maestro de enxada e de livros sabia bem trafegar entre o erudito e o popular e delimitar os campos do sagrado e do humano. Sua vida reluz.

Sílvio Ribas

Sílvio Ribas

Jornalista

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