QUASE SAMBA | Cores, Nomes: Os Mamíferos


Ouço um ruído de guitarra que me remete a momentos dramáticos do grunge, talvez às performances de Kurt Cobain na fase pré Nevermind. Na faixa seguinte, o que me chega é uma canção com abordagem jazzística, ao mesmo tempo rock, dialogando com a proposta de artistas como Blood, Sweet and Tears, Frank Zappa e Soft Machine, que anos depois viriam alimentar “Steely Dan”, “Weather Report”, Spyro Gyra, consolidando a ideia do “jazz-rock”.

Os arquivos de áudio seguem rodando em meu notebook… são fruto de um processo de digitalização de fitas magnéticas precariamente conservadas, que registraram ensaios e shows entre 1968 e 1974 (aproximadamente). À medida que vou ouvindo, o amálgama de referências mostra uma capacidade intrigante de sintetizar o “zeitgeist” da canção daquele período: samba, psicodelia, baião, blues, jazz, folk…

O nome da banda responsável por esses áudios? Os Mamíferos.

(Os Mamíferos)… o nome já traduz muito do que estava no ar da contracultura nascente da época. Um convite ao corpo, ao relacionamento com nosso aspecto animal, sem mais alimentar a guerra ancestral que a “essencialidade” e a “unidade” das coisas contra ele tramou…

Foi em 1966, na ilha de Vitória, que Afonso Abreu, Mario Ruy e Marco Antônio Grijó se encontraram para exercitar “Os Mamíferos”. Com eles, uma rede de artistas e pensadores produziram em alta voltagem um conjunto de canções absolutamente em diálogo com o que vinha acontecendo de mais vivo e urgente. Algumas das principais figuras desta rede, além dos três integrantes originais, foram Aprígio Lyrio, Sérgio Regis, Rogério Coimbra e Arlindo Castro.

O grupo começou explorando a fusão da bossa-nova (que eles tocavam desde aproximadamente 1963) com o rock n´ roll. Em 1967, já haviam ampliado esse processo para incluir outros gêneros, e produziram coisas tão interessantes quanto “Namorada sem calçada”, a canção jazz-rock citada no primeiro parágrafo. Mas foi justamente a partir de 1968 que o “espírito do tempo” engoliu e regurgitou “com louvor” toda a criatividade e inquietude daquela turma. “Mônica, Verônica” acrescentava à carga de fúria e ruído “grunge” um certo balanço soul, convergindo intensidade e balanço. Do mesmo modo, “Baby” mergulhava a psicodelia em uma harmonia jazzística, trazendo insights sonoros dos mais criativos.”

Mais indícios dessa arqueologia impressionante: ainda em 1968, Afonso Abreu compõe “Corina”, e no início da década seguinte registra em sua casa uma versão da música a partir de um sampler de Milt Jackson! A base foi registrada num gravador philips e a banda ia tocando por cima… Por fim, para darmos uma dimensão apenas do que foi produzido neste ano histórico para a contracultura, Sergio Regis e Mario Ruy compõem “Agite antes de usar”, onde citam Marshall Mcluhan, fazendo um jogo de palavras de caráter crítico com a célebre citação “o meio é a mensagem” (na música, os versos gritam que “o medo é a mensagem”).

Outras canções produzidas neste mesmo ano, como “Super-homem”, também da dupla Sérgio Regis e Mario Ruy, são capazes de traduzir com sensibilidade e poder de síntese a crítica essencial da contracultura:

Super-homem, eh, eh

Arde em chamas

Num desastre de autorama

Morreu sentado, desmoralizado

Em que pese a minha opinião

Esta não é posição

Para um herói que se preze

Para um herói de massa

Para um herói de raça, superior

Que defendeu a ordem com ardor

E sucumbiu sem descobrir

O gosto e a malícia do amor

Era o super-homem, coitado

Era o super-homem herói de estado.

O ano de 1969 viu as composições feitas pela rede mamífera ampliarem ainda mais seu leque de referências, integrando à base original rockeira-bossa-novista elementos mais elaborados de jazz, samba, baião, soul music, entre outros. Desse período, podemos destacar “Ilhas do sul”, “Dita”, “Não tem nada não, my friend” e “O impossível da felicidade”. Em 1970, o grupo já havia praticamente se dissolvido, com a mesma intensidade com que foi criado e habitado pelas mentes inquietas dessa turma de artistas corajosos o suficiente para estarem “à altura do presente”.

Os Mamíferos não gravaram nenhum disco, não deixaram nenhum “registro oficial”. Apenas os contemporâneos da banda em Vitória puderam acompanhar suas performances durante o curto período em que existiram com essa configuração (os mesmos artistas se reuniriam posteriormente em outros grupos, afastando-se paulatinamente do espírito rockeiro, embora mantendo algo de seu “ethos”). À nossa disposição atualmente, apenas áudios precários de ensaios e shows daquela época. De todo modo, essa atmosfera de clandestinidade parece hoje amplificar a potência do grupo na história: ouvir os registros da forma crua como estão nos traz um senso de visceralidade e urgência algo contrastante com o ambiente “copypaste” da cultura digital, no qual tudo pode ser editado, “limpado”, “metronomizado”, “compressionado”, “normalizado”…

Desde 2005, o projeto “Aurora Gordon” vem resgatando elementos dessa trajetória, levando ao público o repertório mamífero em diversos formatos (álbuns musicais, material audiovisual, e agora, mais recentemente, um livro biográfico). Falta ainda ampliar o acesso justamente a esse conteúdo “clandestino”, qual seja, os áudios originais de ensaios e shows entre aproximadamente 1966 e 1974 (englobando também o período pós-mamífero, quando eles empreenderam projetos como o grupo “Mistura Fina”). Aguardamos a disponibilização deste material fundamental. Enquanto isso, uma amostra pode ser conferida através da playlist disponibilizada neste post.

“Estar à altura do presente”… ouvi essa frase durante uma aula de políticas culturais, como sendo o principal desafio para quem pretende pensar, pesquisar, criar, empreender… uma tarefa das mais árduas, já que o “real” tende a nos cegar e amedrontar, lançando-nos sorrateiramente de volta ao passado, ou projetando-nos em algum futuro idealizado. Olhar as coisas para além dos filtros e condicionamentos da memória, da tradição, da educação, dos padrões sociais e culturais vigentes, das expectativas e promessas futuras, parece ser, antes de tudo, um ato de coragem. Em que pese o risco de eu estar incorrendo em alguma espécie de “mitomania jornalística”, ouvir esses áudios me fez pensar em tudo isso.

Para saber mais: http://auroragordon.com.br/

 

Carlos Dalla

Carlos Dalla

Músico, escritor e especialista em gestão e políticas culturais

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