Crônica do telefone

Ela tinha um encontro marcado com amigas de profissão. Já chegou ao lugar com um brilho diferente. Estava radiante, pois, naquele dia, sua crônica tinha sido aceita pelo Pasta Joia, site de mídia e notícias, composto por um grupo de jornalistas de peso, com a participação de várias pessoas interessantes. Ao compartilhar a sua felicidade com as meninas, comentou sobre o assunto tratado no texto: a mudança das referências para as crianças de hoje.

Durante um desafio do jogo Imagem&Ação, a mãe começou a desenhar um telefone de gancho para o filho adivinhar, mas foi obrigada a interromper o rascunho, ao perceber que o garoto de seis anos não iria entender o significado da imagem. Nascido na era dos celulares, o pequeno tampouco teria referências para compreender o verbo discar, usado antigamente para descrever o ato de efetuar uma ligação em um aparelho contendo um disco.

Ao comentar o caso na roda de amigas, bateu saudade. Cada uma delas disparou a contar sua experiência pessoal com telefones, apertando as teclas da memória ou, como se diz atualmente, teclando. Uma delas lembrou-se do prazer quase infantil de assistir ao disco transparente girando, a cada número ‘discado’. Era um barulhinho bom de ouvir. Outro charme do aparelho antigo era o local de encaixar as mãos, permitindo andar com ele de um lado para o outro, enquanto durasse a ligação.

Os atores das telenovelas adoravam repetir esse gesto, que exalava autoestima e confiança. Desfilavam para lá e para cá nas cenas, acompanhados de seus respectivos telefones. Quando criança, ela se sentia hipnotizada ao assistir tais quadros, especialmente se o ator fosse bem apessoado, ou usando a linguagem da época, um pão.

Durante o bate-papo de garotas, que ganhava recordações a cada taça de vinho, ressurgiram aparelhos nas cores vermelho, cinza ou verde, esse último de tom indefinido. Na casa dos avós de outra das integrantes do grupo, o telefone era esverdeado. Conforme a descrição precisa, era cor de burro fugido, que dificilmente iria constar nas caixas de lápis de colorir da Faber-Castell, com 24 ou 36 unidades, outro objeto de desejo daqueles tempos.

Coitada da nova geração, que nunca irá saber para que servem, por exemplo, os orelhões. Eles se tornaram trambolhos esquecidos em alguns cantos das cidades brasileiras, praticamente sem serventia. Curiosamente, imitavam o formato anatômico da orelha. Uma amiga comentou que é permitido fazer ligações gratuitas nesses equipamentos públicos, inclusive interurbanas, mas ainda não pude tirar a prova. O fato verdadeiro é que era uma graça inserir fichas e mais fichas no repositório da orelha gigante, única maneira de continuar uma conversa.

Outra curiosidade eram os cartões telefônicos, que traziam imagens bacanas no verso e eram colecionáveis, mesmo depois de terem zerados os créditos para ligações. Até poucos anos atrás, eu trazia um deles na carteira, ilustrado, se não me engano, com uma foto da Amazônia.

O encanto dos telefones de antigamente esgotou-se. Atualmente, o que se busca são aparelhos miúdos, com memória estendida e casco à prova de quedas, que possam ser carregados junto do corpo, quase como um apêndice humano. O romantismo retrô está em baixa. Em alta, vem a funcionalidade dos objetos, que podem até atender bem, mas perderam todo o charme.

Sandra Kiefer

Sandra Kiefer

Jornalista

4 comentários em “Crônica do telefone

  • 18 de setembro de 2017 em 13:10
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    Bela crônica Sandra Kiefer! E eu fiz parte dela, que orgulho! Sou a amiga que gostava do barulhinho do disco do telefone. Beijão queridona, parabéns pelo texto.

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  • 18 de setembro de 2017 em 13:11
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    Esqueci… Esse modelo vermelho aí de cima era o da minha casa… Bjoca

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  • 21 de setembro de 2017 em 11:34
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    Que bom ler mais um belo texto da jornalista Sandra Kiefer. Esse espaço privilegiado da internet para fatos e ideias a partir de Belo Horizonte ganhou um importante reforço com as colaborações dela.

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    • Sandra Kiefer
      22 de setembro de 2017 em 13:21
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      Elogios vindos dos grandes amigos são suspeitos, mas dizem que devemos simplesmente acatar e agradecer. Geórgea Choucair e Sílvio Ribas, vocês iluminaram o meu dia, muito obrigada!

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