Das origens, dos tambores e da vida…

No Brasil, como em todas as Américas, existe uma forte tradição musical, trazida pelos africanos e consolidada, com o tempo, por nossa raça miscigenada. O sincretismo, necessário para a sobrevivência dos rituais e manutenção das crenças religiosas, em uma fusão com as práticas do catolicismo, tomou as ruas das principais cidades brasileiras e se manteve presente na evolução histórica de nosso povo. Jamais sucumbiu a toda sorte de infortúnios, aos quais foi exposto. A música tomou as ruas e o tempo se encarregou de conduzi-la…

Em Minas Gerais os tambores sempre ecoaram muito forte. Associados aos elementos musicais europeus, juntamente com a música do Barroco tardio, talvez tenhamos desenvolvido uma forma quase “religiosa” de entender e fazer a música popular. Mais tarde, por volta da primeira metade do século passado, Claude Debussy e Maurice Ravel, talvez tenham transitado pela programação de algumas rádios brasileiras, dividindo o espaço com as famosas Big Bands norte-americanas. São muitos os depoimentos de alguns expoentes da música mineira, que afirmam ter aprendido muito com as harmonias dos impressionistas e os improvisos dos jazzistas, ouvindo-os no rádio. Tudo isso, somado às práticas dos toques de candomblé e aplicados em função do gênero e estilo de cada região, influenciou diretamente a primeira safra de percussionistas e bateristas, culminando em várias escolas, práticas de estudo e abordagens técnicas.

Um dos maiores impactos em minha vida, se deu ao ouvir, pela primeira vez, o CD “A love Supreme”, de John Coltrane. Um trabalho de uma beleza e grandeza incomensuráveis. Após exaustivas audições, foi o baterista Elvin Jones que me arrebatou, despertando em mim um misto de êxtase e medo de nunca compreender e conseguir viver intensamente a música. Deixando que ela fosse, por si mesma, um relato do que sou e do que  penso em relação à vida e aos mistérios do universo. Naquele momento foi difícil entender o que se passava. Foram muitas audições para começar a compreender sua linguagem e conceito de ordenação rítmica, na improvisação. Mas o tempo passa e o nosso próprio caminho vai se delineando à custa de nossa necessidade de expressão e de imposição, ou desenvolvimento, da personalidade. Essa verdade se impõe gradativamente. Sem pressa e sem preconceitos. Vivendo.

Há alguns anos atrás, bem próximo do Natal, era comum o encontro de vários  músicos e representantes de outras artes, para a realização de um show em Belo Horizonte. O local, muito acolhedor, era o quintal da casa da família Horta, onde funcionava o bar “Aqui, oh”, do contrabaixista e querido amigo Paulinho Horta. Verdadeira confraternização de artistas, regada a cerveja e música. E abraços, beijos, risos… Festa.

No camarim, todos cantavam e tocavam seus sonhos, refletidos em músicas que emanavam de seus instrumentos e vozes. Parcerias se formavam e novos amigos eram feitos em uma improvisação musical, onde todos tocavam com todos, confirmando a possibilidade da igualdade, em meio às diferenças. De tempos em tempos, algum músico subia ao palco, atendendo ao chamado do anfitrião Toninho Horta.

esdra1Foi em um desses shows, que me deparei, no palco, com Esdra Ferreira, o Neném (foto). Em um encontro inusitado, tocávamos um afro-samba de Baden e Vinícius, quando, por sugestão do contrabaixista Ivan Corrêa, que nos acompanhava, com um olhar, acenei para o Neném, deixando espaço para que ele fizesse um solo improvisado. Brilhante, ele, naturalmente, me deu a primeira aula que seria seguida por outras, durante aproximadamente um ano, com encontros periódicos. De seus tambores e pratos eu podia sentir toda a ancestralidade vivenciada por mim em tempos que não recordava. Lamentos e angústias sufocados em navios negreiros. Mas, principalmente força, rogando aos deuses a elucidação da maldade humana, por meio de uma musicalidade moldada pela dedicação e entrega. A rítmica brotando dos atabaques do candomblé, onde Run, Rumpi e Lé me asseguravam a possibilidade de deixar pulsar o coração e manter viva a chama que nos move na música. Técnica a serviço da expressão maior da vida.  

Mais uma vez fui tocado pelo êxtase e medo de nunca compreender e conseguir viver intensamente essa arte. Naquele instante, selei um pacto de respeito e dedicação com a  música e, em transe, vislumbrei a possibilidade de deixá-la habitar em mim, sendo eu, apenas um instrumento para sua manifestação. E a vida segue…

Geraldo Vianna

Geraldo Vianna

Compositor, violonista e produtor musical

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