De uma vez por todas

Deixou a casa às escuras, medindo os passos, para não ser notado. Trancou a porta. Forçou a maçaneta, para conferir se estava mesmo trancada. Por alguma razão, guardou consigo a chave. Alojou a pesadíssima mala no carro. Não olhou para trás. Queria encerrar aquele capítulo de sua vida, de uma vez por todas.

Com a consciência leve, parou em um bar qualquer para brindar à sua própria coragem. Afinal, havia demorado quase um ano para, de fato, abandonar a mulher e a prole. Tomou com grande prazer a primeira garrafa de cerveja, a segunda também. Na terceira, reparou, finalmente, na atendente que o servia. Encantou-se pelo seu sorriso e pelas suas formas. Em seis meses, Marinete mudou-se para o flat em que ele se instalara, desde que deixara a família.

O relacionamento com Marta e os meninos fora regulado pela Justiça. Uma pensão generosa, visitas e passeios de quinze em quinze dias. A esposa aceitara os termos propostos sem grandes dramas: não queria briga. A ela interessava apenas seguir a vida, na paz de Deus, até que pudesse, quem sabe, encontrar outro amor. Isso aconteceria um ano e meio depois, quando conheceu Aluísio Felipe, o advogado bem sucedido que se tornou o seu namorado em uma semana.

Célio Mauro não gostou de ver as fotos da ex-mulher ao lado do belo jovem, nas redes sociais. Tinha a sua Marinete, mas incomodava-o muito imaginar a mãe de seus filhos nos braços – e pior, na cama – de outro homem. Às escondidas, passou a monitorar os movimentos de Marta e de seu novo parceiro. Irritava-o a hipótese de que ela o houvesse esquecido, superando a tristeza do divórcio. Passou a roer unhas. Um amigo chegou a dizer que a sua queda de cabelo era por conta do ciúme. Marinete fingia não perceber as aflições do companheiro, até o dia em que os dois casais se encontraram, casualmente, em um restaurante, não havendo como ignorar o estado em que isso deixara Célio Mauro. Em seis meses, Marinete voltou para a sua casa, para não ter que aturar, por mais nenhum minuto, o homem nervoso e agressivo em que o seu marido se transformara.

De novo sozinho, Célio Mauro passou a peregrinar pelos bares da cidade, na esperança de encontrar uma outra Marinete, dessa vez, quem sabe, capaz realmente de fazê-lo esquecer, para sempre, da primeira mulher. Fracassou. Desamparado pela sorte, e bebendo cada vez mais, chegou até a pensar em acabar com a própria vida no dia em que a Justiça concluiu, a pedido de Marta e sob inspiração de Aluisio Felipe, que era melhor afastar as crianças do pai biológico. Foi a gota d’água. Assim que teve a primeira oportunidade, fez o que, num dia de fúria, planejou fazer, com a frieza de quem não tem mais nada a perder. Era um sábado em que sabia que Marta estaria sozinha. Não demorou mais que uma hora.

Deixou a casa às escuras, medindo os passos, para não ser notado. Trancou a porta. Forçou a maçaneta, para conferir se estava mesmo trancada. Por alguma razão, guardou consigo a chave. Alojou a pesadíssima mala no carro. Não olhou para trás. Queria encerrar aquele capítulo de sua vida, de uma vez por todas.

Rogério Faria Tavares

Rogério Faria Tavares

Mestre em Direito pela UFMG e jornalista. Membro da Academia Mineira de Letras e do Pen Clube do Brasil, é cronista do Diário do Comércio. Casado com Sabrina e pai de Carlos e Gabriela, reside em Belo Horizonte, MG, cidade em que nasceu.

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