Descoberta da morte

Quase sempre inquieto, correndo de lá para cá, Bernardo ontem parou, por completo. Sentou-se ao lado da mãe, recostado em seu ombro, no sofá da sala de visitas. Distraída, com a cara enfiada no livro, ela nem notou a chegada do menino.

Quando deu por si, percebeu que o filho de 7 anos a encarava, memorizando cada sinal do seu rosto. Perguntou sobre a espinha na testa dela, a bolinha no canto esquerdo da boca e a inquiriu em relação às olheiras profundas, lembrando um urso panda.

Diante dessa referência engraçada, os dois riram, juntos, às gargalhadas. Bernardo pareceu menos tenso, mas tornou a encarar a mamãe, com a testa franzida. Parecia que seria a última vez em que veria seu rosto. Ela chegou a temer por algum infortúnio. Será que o filho começara a ter poderes mediúnicos?

Imaginativa como sempre, com a mente prestes a alçar voo, a mãe acreditou que iria morrer desta vez. Não amanheceria no dia seguinte, nem poderia preparar o usual copo de leite das crianças ou devorar uma fatia de queijo. Perderia a aula de pilates e não teria como entregar a encomenda de crônicas inéditas para o Pasta Joia.

Seu destino estava traçado na cabeça do menino, que neste quesito, saíra à semelhança da mãe. Bernardo, certamente, já visualizava a mãe lá no céu, vestida com o manto azul, salpicado de estrelas. Teria os cabelos azuis e olhos cor de prata, emanando a luz do luar. Seria ainda mais linda do que é, perante o olhar aumentativo dos filhos.

A situação já estava nesse ponto, com a mãe morta e enterrada no caixão, cercada por flores brancas e amarelas, além de uma bela corbélia de rosas vermelhas, quando Bernardo interrompeu a viagem ao mundo da lua, dirigindo-lhe a pergunta decisiva:

— Mamãe, por que o tempo passa tão rápido?

Sem saber o que poderia responder, com que entonação e sem perder o compromisso com a verdade, acima de tudo a verdade, a mãe permaneceu muda. Simulou que continuava lendo e chegou a virar a página, sem nada entender do conteúdo da 123. Pegou o marcador e, disfarçadamente, inseriu-o na 122.

Foi surpreendida, novamente, pelo olhar implacável do garoto, que a tudo observava, sem deixar escapar detalhes. Maldito faro de repórter, transmitido pela genética, pensou ela, aflita. Bernardo, entretanto, ignorou o malfeito da mãe.

Sentindo-se terrivelmente culpada, como nunca, ela decidiu abrir o coração. Contou do seu arrependimento em relação à maternidade tardia dele, depois dos recomendados 35 anos. Amaldiçoou o fato de que, quando ela chegasse aos 60 anos, o filho teria apenas 22, estreando em sua linda juventude.

Por que adiara tanto a decisão de ter filhos? Se soubesse como era maravilhoso ser mãe e como a carreira importava menos diante de um abraço dos filhos, ela desejou ser capaz de voltar no tempo. Com a sabedoria de agora, e o corpo de antes, inverteria a equação trabalho e filhos. Em primeiro lugar, viria logo a possibilidade de formar a sua família, feliz como nunca.

Quebrando o gelo, Bernardo enfim revelou o motivo de ter colocado a mãe contra a parede. É que havia tocado dentro do carro, na volta da escola, a música da Adriana Vilela, adaptada em homenagem às mães. Por meio de versos, a intérprete avisa que “a vida é trem-bala, parceiro, e a gente é só passageiro prestes a partir./Segura teu filho no colo e abraça seus pais, enquanto ainda estão aqui…”

Embalada pelos acordes do laiá, laiá, laiá, a mãe teve vontade de ligar pessoalmente para a cantora, implorando para que ela retirasse a canção do ar. Ou, quem sabe eleger-se deputada estadual, no próximo pleito, e baixar uma lei proibindo a execução desses versos melancólicos, que tanto afligem o filho. Se não desse, poderia estudar direito e fazer concurso para juíza, determinando a cassação dos direitos autorais da tal melodia.

Enquanto os pensamentos vagavam longe, o menino já estava apaziguado, sereno, assentado de pernas cruzadas no chão, em posição de índio. Pegara os bonequinhos da Playmobil e inventara uma nova aventura. Ele era o herói, e ela, a heroína. Os dois estavam envolvidos no combate a terríveis dinossauros de borracha, desproporcionalmente maiores do que eles. Como não poderia deixar de ser, mãe e filho morreriam na batalha, não sem antes lutar muito. Em seguida, reviviam, graças aos incríveis poderes mágicos atribuídos aos heróis.

Foi então que ela percebeu, enfim, que o filho era forte como um panda, sabido como Visconde de Sabugosa e corajoso tal e qual Dom Quixote, capaz de enfrentar moinhos de vento criados pela própria imaginação. Com todos esses heróis ao redor, nada mais haveria a temer. Eles estavam salvos de todo o mal. Amém.

 

Sandra Kiefer

Sandra Kiefer

Jornalista

Um comentário em “Descoberta da morte

  • 23 de abril de 2018 em 15:15
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    Sandra, que crônica inédita legal! Tocante a todos que desejam ter todo o tempo do mundo para curtir cada segundo de nossa prole. Eu e meu pequeno sempre falamos dessas coisas de perspectivas de vida, que precisam seguir juntas o quanto puderem. Obrigado.

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