Do Currículo Lattes ao álbum de família*

Sou frequentadora da Plataforma Lattes. Descobri o “culto” ao currículo no meu retorno à universidade. Há 30 anos, quando fiz a primeira graduação em jornalismo, depois da formatura, a maioria ia trabalhar. Pós-graduação era privilégio de poucos.

Hoje, vejo a moçada se formar e emendar logo o mestrado, depois o doutorado e até o pós-doc. É a geração dos títulos cada vez mais exigidos pelo mercado na qualificação do profissional. E para valorizar mesmo o currículo é preciso participar de congressos, seminários, fazer cursos extras, de preferência no exterior, publicar, publicar, publicar…. Vejo meus professores exauridos por essa exigência.

Vítima da síndrome acadêmica, passei a consultar o currículo dos médicos antes de chegar ao consultório, por melhor que seja a indicação. Mas, descobri que competências preciosas não aparecem Lattes, como a qualidade do relacionamento deles com seus pacientes.   

Aprendi que o médico faz parte do tratamento e que, às vezes, uma atuação humana e afetiva é muito mais importante do que a própria terapia indicada. Do que a quimioterapia, em alguns casos. É como diz a funcionária que há anos trabalha comigo: “A gente acha que milagre é só a cura, mas não é não. Milagre também é encontrar pessoas boas, na hora em que mais precisamos. ”

É por isso que um cirurgião e um oncologista – ambos com excelente Currículo Lattes! – foram parar no álbum de família da minha tia, entre retratos de muitos anos, de várias gerações. Foi a maneira que ela encontrou para retribuir e registrar para o futuro o carinho com que tem sido tratada nesse último ano.  

Casos de câncer podem ser controlados e até curados com cirurgia e medicamentos. Mas, para enfrentar a angústia e o penoso tratamento, é preciso apoio, presença, mãos dadas. Os médicos que têm essa grandeza têm o poder de suavizar o caminho. Isso não aparece no Lattes, mas enobrece o profissional.


*Este texto é dedicado ao cirurgião Agnaldo Soares Lima e ao oncologista Geraldo Felício da Cunha Júnior

 

Soraia Vasconcelos

Soraia Vasconcelos

Jornalista e escritora

4 comentários em “Do Currículo Lattes ao álbum de família*

  • 20 de outubro de 2017 em 20:34
    Permalink

    Soraia, você me representa com este texto. Parabéns pela clareza das palavras ! Abraço, Juliana

    Resposta
    • Soraia Vasconcelos
      21 de outubro de 2017 em 09:08
      Permalink

      Obrigada, Juliana! Fico feliz que o texto possa contribuir para o difícil exercício do agradecimento quando nenhuma palavra pode efetivamente traduzir o que sentimos nesse momento. Um abraço carinhoso.

      Resposta
  • 24 de outubro de 2017 em 18:04
    Permalink

    Interessante esse confronto entre as duas realidades: a da formalidade total em busca do escore, da performance e da estirpe profissional e a da personalidade individual, familiar e essencial.

    Resposta
  • Soraia Vasconcelos
    25 de outubro de 2017 em 15:38
    Permalink

    É isso, Ribas! E como paciente acho que nós apoiamos nos dois pilares: na performance atestada como competência e na distinção pessoal no trato. Encontrar essas características essenciais no mesmo profissional é um privilégio que traz conforto e segurança. Um abraço

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *