É conversando que a gente se entende

Entre as centenas de ramos de negócios inventados pela civilização, os bares e restaurantes se destacam como um dos mais virtuosos, pois carregam dentro de si um ideal que lhes é inerente. Eles sustentam o propósito emancipador, pois são territórios da conversa entre pessoas diferentes, locais de estímulo à vida cívica. Em uma sociedade global que aprofunda e alarga a compulsão pelos interesses particulares, os bares e restaurantes esvaziam os balões da competição, da pretensão e da pompa, contribuindo para humanizar os humanos, retirando os indivíduos de seus enclaves egocêntricos.

A função sociopolítica dos bares e restaurantes, aos quais se juntam os parques e as praças, é claramente definida: “contribuem para a conversa abrangente e descontraída em que a democracia floresce”. A frase é do historiador e crítico social americano Christopher Lasch, que faleceu em 1994, aos 62 anos de idade. Em nenhuma outra época, a humanidade necessitou tanto de acolhedores espaços de encontros e conversas entre diferentes como nesta era de turbinada globalização.

O imperativo dos novos tempos é a disputa entre as empresas, cada uma competindo na corrida pelo aumento do crescimento da produção, da inovação, de maiores fatias do mercado consumidor, do lucro. De acordo com a lógica da competição globalizada, como escreveu o filósofo e ex-ministro da Educação na França, Luc Ferry, 62 anos, essa interminável maratona “não tem outro fim além de si mesmo” e “não visa a nada além de se manter no páreo com outros concorrentes”. Tais reflexões constam de um dos livros de Luc Ferry, intitulado Aprender a Viver, publicado pela Editora Objetiva, na sua série de bolso denominada, Ponto de Leitura. Embora o título possa erroneamente sugerir que o livro seja de autoajuda, a pequena obra trata, com fluência e leveza, de filosofia para iniciantes.

Mas, voltemos às considerações de Luc Ferry sobre o caráter “automático e sem finalidade” da competição globalizada. Isso significa, em escala planetária, “a morte dos grandes ideais ou o desaparecimento dos fins em proveito dos meios”. O filósofo pergunta: para quê? E responde: para nada. O aumento desse poder de vencer a corrida “tornou-se”, segundo ele, “um processo absolutamente automático e até mesmo cego, já que ultrapassa as vontades individuais conscientes”. É simplesmente, prossegue o escritor, resultado inevitável da competição, estimulada apenas pela obrigação de “progredir ou perecer”, em um movimento “desprovido de qualquer objetivo definido”. É, em outras palavras, como sintetiza Ferry, “uma espécie de mecânica autossuficiente da qual os homens são totalmente desapossados”.

Em contraposição ao “desencanto do mundo”, decorrente do “eclipse do sentido”, expressões estas utilizadas pelo filósofo e escritor francês, há a outra face da mesma realidade contemporânea, que aqui e agora se faz representada pelos bares e restaurantes, instituições detentoras de uma clara e cristalina missão: iluminar o debate público, pois são fontes permanentemente revigorantes das cidades e da cidadania.




Valerio Fabris

Valerio Fabris

Editor

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