E não adianta jogar o trem debaixo da terra

O metrô tornou-se a panaceia, a varinha de condão. Dez em cada dez brasileiros dizem a uma só voz: “precisamos de metrô”. Pois vejamos que Moscou (foto) dispõe do sexto maior sistema de metrô do mundo, superando os de Tóquio, Madri e Paris. Ostenta, porém, o quarto pior trânsito planetário. Segundo o jornal The Washington Post, o enrosco do tráfego urbano de Moscou só é superável pelo de Istambul (1º), da Cidade do México (2º) e do Rio de Janeiro (3º). Não se pode recorrer à alegação de que as ruas de Moscou sejam estreitas. De forma alguma. As avenidas são largas como em nenhuma outra cidade, e, sob elas, há passagens subterrâneas para a travessia dos pedestres. O que fez, então, o trânsito da antiga sede do império soviético se tornar uma encrenca cotidiana?

O motivo dessa anomalia é o mesmo que levou três cidades brasileiras a figurarem na classificação dos piores trânsitos do mundo, publicada pelo Washington Post. Nesse ranking, como já foi dito, está o Rio de Janeiro em terceiro lugar. As outras: Salvador ( 5º lugar) e Recife (6º). Completando a lista, por ordem decrescente: St. Petersburgo (7º), Bucareste (8º), Varsóvia (9º) e Los Angeles (10º). Ou seja: o que irremediavelmente entope as ruas, mesmo que se tenha uma admirável rede de metrôs, são os movimentos pendulares dos moradores suburbanos, da casa para o trabalho, do trabalho para a escola, da escola para a casa.

Até a consumação do fim da União Soviética, em dezembro de 1991, a frota russa de automóveis era relativamente pequena. Com a instauração do livre mercado (nem tão livre assim), a maioria das famílias moscovitas equipou-se com seus carros particulares, a exemplo do que fizeram os brasileiros durante os anos dourados das exportações de commodities. Pois bem. Voltemos a Moscou. As famílias continuam morando na periferia da capital russa, nas quais, durante os 74 anos do regime comunista, estavam os centros industriais e, em volta deles, as vilas operárias. Na área central da cidade, concentrava-se o aparelho burocrático. Ainda hoje, 92% da população residem na periferia e 62% trabalham no centro.

Combinando-se o movimento pendular (decorrente da cidade espraiada) com a motorização da população e, adicionalmente, com a baixa qualidade do transporte público, a crise do trânsito chega ao seu máximo. O que salva Moscou de liderar o ranking dos congestionamentos no mundo, e permite que a cidade hoje ocupe um menos vexatório quarto lugar, é o seu sistema de metrô. Mas, mesmo assim, a bela rede de metrô de Moscou não livra a cidade de figurar como um dos maiores fracassos globais, em matéria de mobilidade. Se o transporte público é escancaradamente ruim, como acontece em Istambul, na Cidade do México ou no Rio de Janeiro, ampliam-se, ainda mais, a frota de automóveis em circulação. Por isso, essas três cidades ocupam os três primeiros lugares, no ranking do trânsito encalacrado.

Um estudo do USP Cidades, núcleo da Universidade de São Paulo, realizado por encomenda da Fiat Chrysler Automobiles, mostra que 70% das viagens urbanas, nas metrópoles brasileiras, ocorrem no percurso compreendido entre o local de trabalho e a escola. A característica comum aos centros urbanos brasileiros é a da separação das funções urbanas, sobretudo com os aglomerados residenciais apartados das áreas destinadas ao trabalho, ao comércio, aos tratamentos de saúde ou aos estudos. As moradias foram levadas, de um lado, às periferias pobres e, do outro, aos condomínios de luxo.

Portanto, não há escapatória. A prioridade máxima para se desatar os nós dos deslocamentos pendulares é a adoção do urbanismo da cidade compacta, seguindo-se o modelo europeu, no qual compartilham-se e integram-se os usos residencial, comercial, de recreação e circulação. Os deslocamentos passam a ser feitos, assim, em distâncias menores, inclusive a pé. Ou, por meio de bicicletas, metrôs e ônibus.

Ao se espraiarem para as bordas dos municípios, as cidades brasileiras acabam registrando uma baixa relação no número de habitantes por quilômetro quadrado (km²). A redução do caos no trânsito requer a compactação urbana. É preciso misturar.

Valerio Fabris

Valerio Fabris

Editor

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