E que tal Belo Horizonte, Sylvio?

Ele mora no Santo Antônio. Gosta de gente e de cerveja no centro da mesa. Tanto assim é que montou um bar já no salão de entrada do escritório. Entre os 300 projetos de edificações por ele assinados, há uma obra muito conhecida dos belo-horizontinos: o Rainha da Sucata, na Praça da Liberdade, feito a quatro mãos com o arquiteto Éolo Maia (1942-2002).

Um dos amigos que lhe são bem próximos diz que Sylvio de Podestá é um “botequeiro sustentável”. Quer dizer: “Tem hora para começar e parar, mantendo a conversa sempre no prumo”. Sua casa fica em frente ao seu escritório, e vice-versa. Para chegar ao Via Cristina Bar e Cachaçaria, onde bate ponto duas vezes por semana, só dobra a esquina.

Belo Horizonte é uma cidade ao alcance de um Sylvio a pé. Ele personifica o aforismo de Proust: uma verdadeira viagem de descoberta não consiste em buscar novas paisagens, mas em ter novos olhos.

Cinco perguntas ao arquiteto e urbanista:

Onde uma cidade mostra que tem qualidade?

É no chão. Pode-se ter uma cidade com os mais belos prédios do mundo, com passeios bonitos e praças.  Mas isso tudo não serve pra nada se não há a cidade no chão. Esses novos bairros e as novas áreas que você vê, tipo as da Avenida Berrini, em São Paulo, do cais de Londres, das novas torres de Madri, ou o Belvedere, aqui em Belo Horizonte, são uma ilusão. Não há cidade aí. O cara sai da garagem do seu escritório, pega uma autopista, entra em outra garagem, e está em casa. O que existe ali é parecido com Los Angeles. Ao lado do estacionamento do prédio em que mora, há um vendedor de churros;  lá adiante, há um restaurante mexicano, um cachorro quente qualquer, e, no mais, aquela vastidão de asfalto e prédios.

Qual o melhor jeito de se usufruir da vida urbana?

É flanar e ver o flanador. É sentar em um bar ou café e ver as pessoas passarem. É o melhor jeito de ver, conhecer e sentir a cidade. Mas há, entre os que fazem uma cidade sem chão, uma ojeriza por música e mesa na calçada. É o melhor lugar para se conhecer uma cidade, olhar quem passa: que roupa veste, se caminha depressa ou devagar, se nas roupas daquele lugar predomina o colorido ou não, se tem mais homem ou mulher, e o cara que anda por ali está meio à toa ou apressado. 

Como está o Centro de Belo Horizonte?

É para mim o melhor lugar da cidade. Está se recuperando devagarzinho. Tem muitos jovens indo morar lá.  Há pontos aglutinadores, como o Sesc Palladium (com teatro, cinema e pequenas salas para shows e exposições), o Shopping Cidade (que tem o desenho de uma galeria comercial ligando quarteirões), a Imprensa Oficial, o Mercado Central, o Edifício Maletta (com um dos mais tradicionais bares da cidade, e, também, com lojas de livros antigos, escritórios), o Museu Inimá de Paula, o Cine Theatro Brasil, o Centro de Referência da Moda. E assim por diante. Junto ao Centro, há a Praça da Estação, a Serraria Souza Pinto (transformada em uma área de eventos). O que está faltando é a gente, durante a noite, poder andar por li mais descontraidamente. Ainda há poucas moradias no centro, tornando as ruas mais vazias depois que o comércio fecha.

E a Savassi?

O que falta à Savassi é uma boa gestão. Começaram a realizar grandes eventos, que não cabem na escala da região. Isso ocorreu na Copa do Mundo. E acontecem alguns shows. Ocorre uma ocupação desproporcional, que deveria ser levada para a Praça da Estação, que tem uma área bem maior e mais adequada. À Savassi falta gestão, faltam pequenos palcos, um tratamento que seja compatível com a dimensão desse lugar.

Morar no condomínio e trabalhar em Belo Horizonte. Faz sentido?

Ora, se o cara vai morar num condomínio, lá longe, porque é escritor, poeta, artista plástico, e quer se isolar para refletir e trabalhar, tudo bem. Vai ficar lá sossegadinho, morando bonitinho. Mas, não. O sujeito mora lá, com a sua família, e trabalha em Belo Horizonte. A mulher dele, também. Os filhos estudam em Belo Horizonte. Então, é aquele vaivém sem fim. Vem para a cidade todos os dias, joga fumaça no ar, entope o trânsito, deixa na cesta seu lixo diário, e volta correndo pra lá, virando as costas para todos os problemas que ajudou a criar. Sequer frequenta um bar ou restaurante da cidade, porque tem o seu clube, piscina e quadra de tênis no condomínio. Não faz parte de nenhuma associação de bairro, nem vai a reunião de sindicato, a não ser da Fiemg.

 

Valerio Fabris

Valerio Fabris

Editor

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