Ecologia – como lobos trazem rios de volta

Na área ambiental uma das palavras mais conhecidas é ecologia. Ela já deu nome aos que hoje são chamados de ambientalistas – outrora denominados “ecologistas”. Ecologia vem da junção das palavras oikos, termo grego que significa “casa”, e logos, também do grego, que significa estudo. Em termos mais precisos, ecologia é um ramo da biologia que trata da interação entre os seres vivos e o ambiente em que vivem. Essa relação é estudada pelos ecólogos, que constatam ou descrevem como as interações se dão, seus resultados no processo ecológico e a importância da atuação dos indivíduos e suas relações com o ambiente onde vivem.

Com o avanço dos estudos ecológicos, hoje já temos a certeza da importância de várias espécies para a conservação e manutenção de um ecossistema – que é, simplificando, o conjunto dos seres vivos (e suas relações) que habitam um ambiente específico. Sabemos, por exemplo, da importância das abelhas (e também de outros insetos, mamíferos como os morcegos, entre outros) na polinização, crucial para a reprodução vegetal – e, portanto, fundamental também na produção de alimentos.

Sabemos que sem os predadores naturais ocorrem explosões populacionais, como é o caso dos mosquitos sem os sapos e rãs, que regulam sua população. Ou seja, a presença ou ausência de algumas espécies influencia diretamente no ambiente e na dinâmica do ecossistema. É aquela máxima que diz “todo animal, toda planta, tudo tem sua função”.

Há quem diga que baratas e ratos, por exemplo, não servem pra nada. Mas sem esses animais “desagradáveis”, em pouco tempo nossas cidades – principalmente grandes metrópoles – mergulhariam num caos sanitário: ratos e baratas ajudam a processar parte gigantesca de nosso lixo urbano. Sem eles não conseguiríamos dar conta do recado. Nesse caso, é um processo de ecologia urbana.

Interação ecológicas transformam paisagens

A interação entre animais e vegetais é tão efetiva que pode mudar a paisagem de uma região. Inúmeros processos nos mostram o quanto a interação entre eles – a ecologia – é importante e o quanto o equilíbrio é necessário. Foi assim que lobos influenciaram na revitalização de rios em um parque nos Estados Unidos.

Antes da reintrodução dos lobos em Yellowstone, a população de animais como o cervo (foto) aumentou e ameaçou o ecossistema local

Yellowstone, localizado nos estados de Wyoming, Montana e Idaho, é o mais antigo parque nacional do mundo, um dos marcos da conservação por meio de áreas protegidas. Com quase 9 mil quilômetros quadrados, o parque abriga uma vasta biodiversidade, mas durante 70 anos os lobos, naturais daquela região, estiveram ausentes. Foram dizimados, extintos naquela localidade. Suas presas naturais, entre elas os cervos, alces e outros mamíferos herbívoros, se viram livres de seus predadores e suas populações aumentaram consideravelmente, demandando assim mais alimento.

Muitos esforços foram empreendidos no sentido de controlar a população desses herbívoros, mas nada muito eficaz. Com uma população excessivamente grande de herbívoros, a busca por alimento também aumentou em demasia. Nós sabemos da interação entre as matas ciliares e a saúde de rios e cursos d’água.

É sabido que onde há pouca vegetação, dificilmente os rios e lagos permanecem com o mesmo volume sem a intervenção humana. Era o que vinha ocorrendo em Yellowstone: matas ciliares degradadas, nascentes sem proteção vegetal e uma influência negativa na dinâmica ecológica dos animais herbívoros, interferindo na manutenção dos cursos d’água.

Tudo começou a mudar em 1995, quando os lobos foram reintroduzidos no parque. Isso transformou radicalmente o comportamento dos mamíferos herbívoros, que mudaram suas áreas de alimentação, além de diminuir em número. O resultado foi visível: algumas espécies de árvores aumentaram seu tamanho (até seis vezes), outras espécies aumentaram em número, as populações de aves locais e migratórias cresceram – ampliando ainda mais a polinização e a dispersão de sementes, auxiliando na recolonização vegetal no parque.

As mudanças não pararam por aí. Como as matas ciliares e as proteções naturais das nascentes se regeneraram, a consequência imediata foi a mudança do comportamento dos rios, que deixaram de sofrer com as erosões, o assoreamento e tornaram-se mais caudalosos e perenes.

A reintrodução dos lobos – confirmando o aspecto sistêmico e interativo dos processos ecológicos – influenciou também em uma infinidade de interações e ajudou a atrair espécies que haviam deixado de frequentar a região, recuperando processos ecológicos interrompidos no passado.

Isso nos mostra a importância da conservação da biodiversidade – uma das principais bandeiras dos ativistas ambientais hoje em dia –, em razão da importância de cada espécie, seja ela vegetal ou animal, e de suas interações ecológicas no meio ambiente.

Cada espécie conta. Todas têm sua importância, mesmo que não saibamos exatamente qual é.

Assistam a este minidocumentário, na verdade uma das versões disponíveis na internet, que dá mais detalhes da reintrodução dos lobos em Yellowstone.

Thiago Bernardo

Thiago Bernardo

Jornalista, atuando na área ambiental desde sempre, pessoal e profissionalmente. É coordenador de Comunicação da Fundação Biodiversitas.

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