Em nome do livro


O fascínio dos livros, segundo Borges, Victor Hugo, Balzac, Cervantes, Flaubert, Huxley, Pamuk, Eco, Calvino e Geraldine Brooks


Basta lembrar a Bíblia, o Talmude, o Alcorão. Ou a inquisição. Nada tão emblemático quanto os livros. Inclusive na própria literatura.

Jorge Luis Borges, com sua Biblioteca de Babel, imaginou abarcar todos os livros do mundo e “a primeira impressão foi de extravagante felicidade. Todos os homens sentiram-se senhores de um tesouro intacto e secreto. Não havia problema pessoal ou mundial cuja eloquente solução não existisse…”.

Victor Hugo (O Corcunda de Notre Dame) profetizou: “O livro vai matar o edifício”. A palavra impressa sobrepondo-se à arquitetura que, para o autor, foi registro das primeiras memórias da humanidade: “A invenção da imprensa é o maior acontecimento da história. É a revolução-mãe. […]. Sob a forma impressa, o pensamento é mais imorredouro que nunca; é volátil, impalpável, indestrutível. Mistura-se com o ar. No tempo da arquitetura, fazia-se montanha e apoderava-se potentemente dum século e dum lugar. Agora, se faz bando de aves, espalha-se pelos quatro ventos e ocupa a um tempo todos os pontos do ar e do espaço. ”  

Balzac, em Ilusões Perdidas, reverencia o livro em oposição aos artigos de jornal: “Quando quiser fazer uma grande e bela obra, um livro, enfim, vai poder pôr nele os seus pensamentos, a sua alma, apegar-se a ele, defende-lo; mas artigo, que é lido hoje e esquecido amanhã, é coisa que, na minha opinião, vale só o que pagam por ele. ”

Dom Quixote enlouqueceu de tanto ler, no clássico universal de Miguel de Cervantes: “… e assim, do pouco dormir e muito ler se lhe secaram os miolos, de modo que veio a perder o juízo. Encheu-se-lhe a fantasia de tudo aquilo que lia nos livros …”.

“Madame Bovary”, de Gustave Flaubert, foi “envenenada” pelos livros até o adultério: “Assim, ficou decidido que se impediria Emma de ler romances. […]. Não se teria o direito de avisar a polícia se o livreiro continuasse mesmo assim seu trabalho de envenenador? ”

No “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, era preciso “proteger” as crianças e estimular o “ódio instintivo” aos livros, pois “… havia sempre o perigo de lerem coisas que provocassem o indesejável descondicionamento de algum de seus reflexos…”. Afinal, “Não se pode consumir muita coisa se se fica sentado lendo livros. ”

Em Meu Nome é Vermelho, Orham Pamuk refere-se a uma belíssima obra encomendada pelo sultão para representar o poder e a riqueza do Império Otomano no seu apogeu. E tece uma rede de intrigas, morte e sensualidade em torno dos manuscritos iluminados: “… um dia, certamente alguém num reino também distante ouvirá essa minha história. Não é esse arrepio, aliás, que explica o desejo de se ver inscrito nas páginas de um livro? Não é por almejarem essa emoção que sultões e vizires prodigalizam seu ouro aos escribas que contam sua história em livros ou que deem a estes o seu nome como título? ”

Umberto Eco – O Nome da Rosa – põe no centro da trama o Segundo Livro da Poética de Aristóteles, sobre cuja existência não há certezas e no qual o filósofo faria apologia ao riso. Na ficção, crimes e uma biblioteca inteira em chamas para que o livro não fosse descoberto. “ Não eliminas o riso eliminando o livro. ” Advertência útil contra o fetiche do objeto.  “ Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos perguntar o que ele diz, mas o que quer dizer. ”

Italo Calvino, numa deliciosa aventura sobre o prazer de ler (Se um Viajante numa Noite de Inverno) também se dirige ao leitor, sobre o lugar que os livros ocupam na sua vida, “ se eles constituem uma defesa para manter distante o mundo exterior, se são um sonho no qual você mergulha como numa droga ou se, ao contrário, são pontes que você lança para fora, rumo ao mundo que tanto lhe interessa, a ponto de você pretender multiplicá-lo e dilatar-lhe as dimensões por meio dos livros.”

Que se ergam pontes, então, como escreveu Geraldine Brooks (As Memórias do Livro) sobre a Hagadá de Saravejo, manuscrito guardado no Museu Nacional da Bósnia e Herzegovina, ricamente ilustrado e cercado de enigmas sobre sua origem e conservação ao longo de mais de 500 anos, especialmente durante os períodos de guerra: “… a Hagadá veio pra Sarajevo por uma razão. Estava aqui para nos testar, para ver se existiam pessoas que viam que o que nos unia era mais do que nos separava. Que ser humano é mais importante do que ser judeu ou muçulmano, católico ou ortodoxo”.  Emblemático em tempos de tamanha intolerância.

Soraia Vasconcelos

Soraia Vasconcelos

Jornalista e escritora

2 comentários em “Em nome do livro

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