Entre o bulling e a poesia

O primeiro apelido surgiu antes mesmo da inauguração da cidade:  Papudópolis, por causa do bócio que era endêmico na região. O médico higienista que analisou as cinco localidades candidatas a nova capital de Minas chegou a condenar o então arraial do Belo Horizonte:

“… desde que alli grassa o bócio e o seu consectario o cretinismo, que é uma degeneração do homem, e cujas causas não se podem remover por não estarem ainda conhecidas, aqui e algures, perguntâmos: quem, na qualidade de juiz consciencioso, escolheria esse logar paracapital do futuroso Estado mineiro, apezar de suas paisagens, de seu ceo sempre azul, de suas aguas limpidas eabundantes, de suas riquezas mineraes e vegetaes?”  

O Congresso Mineiro desconheceu a recomendação e escolheu a localidade para sediar a capital. E na época da inauguração, em 12 de dezembro de 1897, a cidade já tinha outro apelido: Poeirópolis. O lugar era um canteiro de obras: prédios em construção, vias urbanas sendo abertas. A poeira invadia as casas e incomodava a população formada principalmente por funcionários públicos, muitos transferidos a contragosto de Ouro Preto para a nova capital.

Vieram, então, tempos melhores e o apelido mudou para Cidade Jardim. Esse, sim, ostentado com orgulho pela capital até a metade do século XX. Mas, com o crescimento urbano, o Parque Municipal foi encolhendo, as áreas verdes diminuíram, os jardins da Igreja de São José foram fatiados para o comércio e os fícus da Avenida Afonso Pena, cortados por causa de um bichinho que incomodava a população…. Ou seria para abrir mais espaço para os carros? O título honroso ficou pra trás e, em 1976, a cidade mereceu um triste poema de Carlos Drummond de Andrade:  

“Sossega minha saudade. Não me cicies outra vez
o impróprio convite.
Não quero mais, não quero ver-te,
meu Triste Horizonte e destroçado amor”

Na virada do século, com os jardins reduzidos e os bares se multiplicando a cada esquina, surgiu outro título: Capital Nacional dos Bares. A fama virou notícia na imprensa, atraiu turistas, rendeu festivais de tira-gostos, de comidas típicas e brincadeiras: se não temos mar, vamos ao bar!

Hoje, o apelido anda meio esquecido.

Os bares continuam aí, lotados todo fim de semana – e durante a semana também.

A poeira continua incomodando. Poeira das obras infinitas, do asfalto, pó seco das queimadas na Serra do Curral.

O bócio, pelo menos, está controlado. Papudópolis não somos mais.

E se também não temos mais tantos jardins, ainda nos resta uma cinematográfica temporada de flores. Quaresmeiras, ipês brancos, amarelos, roxos, flamboyants debruçados sobre ruas e avenidas. Uma composição de quadros e suavidades. Talvez, pelo menos nessa época do ano, Drummond achasse alguma razão pra voltar a Belo Horizonte que, pelo menos no nome, sempre foi fiel à poesia.


Soraia Vasconcelos é jornalista e escritora




Soraia Vasconcelos

Soraia Vasconcelos

Jornalista e escritora

2 comentários em “Entre o bulling e a poesia

  • 8 de novembro de 2016 em 20:47
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    que texto incrível, Soraia!!
    Parabéns !!

    Resposta
  • 9 de novembro de 2016 em 07:23
    Permalink

    Soraia, adorei seu jeito de narrar esta história. Acho que Belo Horizonte também tinha um apelido de “formigópolis”. Acho que vi isto no texto da Rita de Cássia Marques. Parece que haviam formigas mil no pedaço. Cidade moderna, sempre mudando e as lembranças da gente nos fazem perceber como o tempo passa ligeiro e que para cada morador/turista há várias memórias: visuais, olfativas, auditivas, sensoriais. E BH cresceu tanto que não conhecemos mais os bairros, sejam de classe alta ou pobres. É assustador!

    Resposta

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