Entre o quintal e o videogame

A caminho da academia, quase todas as noites, costumo ver meninos de nove ou dez anos jogando bola em plena rua, não se importando com os automóveis estacionados nem com os transeuntes que retornam do trabalho para suas casas. Em viagens pelo interior de Minas e de Goiás, noto várias casas cujo piso da entrada e do quintal é calçado por pedras São Tomé.

Essas duas visões aparentemente desconexas me transportam no tempo até a infância. Época em que jogava bola no quintal da casa dos meus avós, no Gutierrez, em BH. Por muitos anos, aquele meu amplo recanto de muros altos ostentou o mesmo piso de pedras, ladeado por um jardim de extensão semelhante – as plantas eram as principais vítimas dos (inúmeros) chutes equivocados deste então perna-de-pau mirim.  

Quando não me divertia por ali, dava meus pontapés com os amigos da minha vizinhança, nos limites do mesmo bairro. Se não havia quintal ou terreiro disponível, numa fase em que as casas da cidade começavam a rapidamente dar lugar a prédios, sempre havia alguém a oferecer o corredor da portaria, a garagem do próprio edifício ou qualquer local – tão impróprio quanto – para sediar nossas memoráveis peladas. E, como quase invariavelmente a bola caía no quintal do vizinho, o responsável pela “pixotada” se incumbia de pular o muro para recuperar a redonda.

É verdade que os videogames já estavam nas lojas e nos comerciais de TV, seduzindo a criançada com seus jogos envolventes e suas cores alucinantes. Havia fases em que só queríamos saber deles, para o desespero de pais e mães preocupados com o desempenho escolar dos pimpolhos. O fato é que naquele tempo havia alternância desses momentos com a bola e, não posso esquecer, com o futebol de botão, outro vício compartilhado com pelo menos uma dezena de vizinhos.

Hoje, a cena dos meninos correndo atrás de uma bola na rua parece algo em extinção, enquanto os consoles de videogames, com altíssimas resoluções e manetes com mais botões que o número de dedos que temos na mão, invadem os lares e tomam conta de crianças, adolescentes e até adultos. E o que era a casa dos meus avós e seu extenso quintal há muito se transformou em um edifício – eis aí um pequeno exemplo do processo de verticalização por que BH passa há pelo menos três décadas. Bisbilhotando pelo Google Maps, verifiquei que no tal prédio há uma quadra no fundo da área de lazer. Mas será que as crianças estão lá?

Entendo que vivi uma transição da infância das ruas e dos quintais para a infância abrigada em apartamento ou condomínio fechado, cujo entretenimento são, em grande medida, o videogame, a TV a cabo e congêneres. Creio que meu tempo de criança não foi melhor nem pior, apenas diferente. Mas uma constatação me perturba: ele já não mais faz parte do mundo material. E agora vive nas lembranças dos muros que pulei e daquele chão de pedras.


Na foto de Laura Lobato, a casa dos meus avós, que cedeu lugar a mais um edifício no Gutierrez

Breno Lobato

Breno Lobato

Jornalista

Um comentário em “Entre o quintal e o videogame

  • 17 de novembro de 2016 em 14:07
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    BRENO
    Assim é a vida : num movimento constante a mesma história se repete e pede bis.
    Linda a foto ! Lindo texto!

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