Especiais e felizes

Durante uma caminhada pela rua com o meu filho fui visitado por vários pensamentos. Tentei me concentrar e prosseguir as minhas reflexões. Em vão. Ele me demandava atenção. Impressionado com os carros, apontava-me os veículos e, com o seu jeito limitado de falar, dizia-me: esse é Fiat… Uno, aquele é Corolla, aquele é Honda Fit e mostrava-me outros e outros. Perguntava-me o nome dos que não conhecia. Íamos nos distraindo ao olhar os carros, o movimento da rua e as pessoas com as quais cruzávamos.

Observava o meu filho, suas risadas e sua alegria. De repente me ocorreu pensar no quanto aprendo com ele. Essas palavras podem parecer estranhas para alguns. Os pais que têm filhos com necessidades especiais sabem bem do que estou dizendo: nossos filhos nos ensinam muito. Trazem-nos à realidade e nos convidam à atenção, à aceitação, à paciência e ao cuidado. E mais: nos permitem ter um olhar mais amoroso em relação à vida e às pessoas.

Não tenho nenhuma dúvida sobre o quanto nos tornamos melhores com nossos filhos. Sei também das diferentes situações das famílias. O caminhar dos pais para aceitar e lidar de forma tranquila com as particularidades dos seus filhos é diferente. Por isso é preciso paciência. Cada um tem o seu tempo. E as demandas do cotidiano precisam ser bem trabalhadas e distribuídas em família, o que nem sempre é fácil.

Ao atender alguns adolescentes e adultos especiais, fico encantado com a dedicação de muitos pais e mães. Alguns deles, mesmo convivendo com dificuldades financeiras, enfrentando desafios de várias ordens, demonstram carinho e alegria com os seus filhos, o que me faz pensar que existem muitas pessoas dedicadas e amorosas neste mundo.

Embora no acompanhamento do filho especial algumas vezes nos sintamos sozinhos e sem – ou com poucas – alternativas, é fundamental buscarmos a sua qualidade de vida, o que terá significados diferentes nos diversos contextos, mas será sempre uma busca pelo reconhecimento, respeito e valorização da sua dignidade humana.   

A convivência com o meu filho me ensina que não há receita de bolo em relação à forma de lidar com as pessoas especiais. O exercício para entender, atender e dar carinho, deve ser feito no dia a dia. A cada novo dia. E em determinadas situações as suas reações serão sempre uma incógnita, tanto para nós, pais, quanto para os profissionais de saúde.

Sem culpas, reconhecendo nossas limitações e fragilidades, precisamos nos permitir crescer e aprender com nossos filhos. O aprendizado será um caminho de encontros e descobertas que nos tornará a todos – pais e filhos – mais felizes… e especiais.

Aristides José Vieira Carvalho

Aristides José Vieira Carvalho

Médico, mestre em medicina, especialista em clínica médica e em medicina de família e comunidade, professor do curso de medicina da FASEH e coordenador de Residência Multiprofissional da Atenção Básica/Saúde da Família da Secretaria de Saúde de Belo Horizonte.

6 comentários em “Especiais e felizes

  • 3 de outubro de 2017 em 11:08
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    Aristides,
    Excelente artigo.
    Abraços.
    Alcinéa

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  • 3 de outubro de 2017 em 14:49
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    Oi Amigo!

    Amei o texto! É exatamente isto: Especiais e felizes! O aprender sempre será diário e eterno! Ninguém melhor do que eles “especiais” para nos ensinar o quanto a vida é especial!
    A sua sensibilidade como pai, amigo e médico é notória para todos que convivem com você, demonstrando sempre alegria, independentemente das reveses da vida…

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  • 3 de outubro de 2017 em 16:50
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    Oi Aristitides!

    É verdade percebemos claramente, você demonstra isso com sua forma de dinâmica e alegre com certeza filhos especiais tem muito a nos ensinar a amar…

    Parabéns excelente reflexão!!

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  • 4 de outubro de 2017 em 21:31
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    Muito claro e sensível. Parabéns, quisera eu ter escrito estas palavras.

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  • 11 de outubro de 2017 em 11:35
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    Parabéns Prof. Aristides! Lindo texto! A sua sensibilidade começa já na escolha do título “Especiais e Felizes”… professor, mestre, médico, pai especial… É prazeroso ler palavras bem escritas, que nos fazem refletir sobre a vida.

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  • 11 de outubro de 2017 em 16:00
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    Esta reflexão foi mesmo do fundo da alma! Acredito, sim, que filhos com necessidades especiais representam um desafio diário na convivência familiar. E a grande conquista é a aceitação com alegria, sem nos privar de sermos felizes apesar das dificuldades. Independente de qualquer situação os filhos são uma verdadeira escola para nós. Antes de tê-los somos uma pessoa, depois de tê-los, somos outra pessoa.

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