Espelho, espelho meu…

A foto é tão surpreendente que precisa de descrição afirmativa: sim, é um médico fazendo uma intervenção cirúrgica no próprio corpo!

É uma das muitas preciosidades do acervo do Centro de Memória da Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (Cememor), gratuitamente aberto ao público.  

Pedro Nava, em “Beira-mar”, refere-se a uma situação assim, quando era aluno da Faculdade de Medicina, nos anos de 1920, envolvendo o então professor David Rabelo: “Outra façanha cirúrgica de nosso mestre: operar em si mesmo, com anestesia local e diante de um espelho, hérnia inguinal”.

O médico da fotografia coincide com a descrição que Nava faz do Dr. David em outros trechos do livro e com foto dele também guardada pelo Cememor, embora não se possa afirmar que seja realmente ele.

David Rabelo já era conhecido em Belo Horizonte por causa de mais uma operação inédita, polêmica e revolucionária para a época:  havia transformado uma “moça” em um rapaz.

Tratava-se de um caso de hipospadia, deformação congênita das vias urinárias em que a uretra se abre na porção inferior do pênis, ao invés de se localizar na ponta dele. A malformação genital levou à falsa interpretação do sexo biológico e só aos 19 anos, na ausência da menstruação, a “moça” foi levada ao médico. O doutor registrou em seu relatório o desabafo da paciente:  sempre a “alarmou a violência dos seus sentimentos por algumas de suas amigas; tendo tido crises de ciúmes que dificilmente ocultava e continha”.

Dr. David fez a cirurgia corretiva e a jovem, já “transformada” em rapaz, ganhou o nome do cirurgião. O caso foi parar nas manchetes e nos salões da jovem capital, naquele 1917, de tradições rigorosas, em que tudo escandalizava a sociedade local.  

Vencida a fase do sensacionalismo e superado o trauma, o rapaz pôde, finalmente, enfrentar o espelho em paz, sem mais dúvidas sobre sua sexualidade. Casou-se e, com o tempo, voltou ao anonimato.

Dr. David Rabelo ficou com a fama e fez história na medicina. Anos depois, foi a vez dele mesmo se deparar com sua realidade íntima, expondo as próprias entranhas diante de um espelho, segurado por um colega, para operar em si mesmo.

Tão curiosa quanto a própria fotografia é a pergunta para a qual não se tem resposta: por que esse médico decidiu fazer ele mesmo a operação? Boas divagações…

Centro de Memória da Medicina
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Soraia Vasconcelos

Soraia Vasconcelos

Jornalista e escritora

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