Eu fico com a leveza da resposta das crianças

Leveza promete ser a palavra-chave de 2018. Aos poucos, devagar, mais pessoas iniciam uma busca pela suavidade, antídoto para a alta compressão do mercado de trabalho, provocada pela atual crise econômica brasileira.

Recentemente, uma amiga elaborou uma lista de tarefas, a ser cumpridas em nome da delicadeza. Para mim, os substantivos lista e leveza nem cabem na mesma frase. Se alguém quer realmente se distrair e voar para dentro de si mesmo, basta se sentar no banco de uma praça de Belo Horizonte. Então, observe atentamente o comportamento de um grupo de crianças, que seja por 15 minutos. É sério.

Em férias escolares, elas estão bastante ocupadas em se divertir e aproveitar a vida. E só. Foi o que notei dias atrás, durante o ‘experimento’ feito com meus filhos Eduardo e Bernardo, de 12 e 7 anos, na companhia do vizinho Henrique, de 11. Para falar a verdade, os três já começaram a brincar dentro do carro, enquanto a mãe dirigia. Nem perceberam que havia engarrafamento, que fazia calor no interior do veículo e que demorou para atravessar até o outro lado da cidade.

Foi uma verdadeira festa até chegar à Praça Floriano Peixoto, no Bairro Santa Efigênia. Ao volante, a mãe pescou algumas piadinhas, ataques de riso e trechos de um animado bate-papo. A certa altura, os três ficaram tão barulhentos que ela cogitou ralhar com a turma. Conseguiu resistir a tempo, após observá-los tão felizes e descontraídos pelo retrovisor.

Por causa do horário de verão, o sol estava a pino por volta das 15h, quando, enfim, chegaram ao destino. Nenhum dos passageiros reclamou do calor, porém. Ao descer do carro, Henrique logo se distraiu, tentando se equilibrar no meio-fio da calçada, sendo seguido pelos outros. Eles se transformaram em uma trupe circense, dependurada em uma corda bamba imaginária, a dezenas de metros do chão.

Os chinelos havaianas atrapalharam, mas todos conseguiram se ajeitar e completar a tarefa. Nenhum dos três protestou por ter de esperar o amigo concluir a travessia. Já estava implícito que todos eram capazes, do mais novo ao mais inteligente, do maior ao mais ágil.

O tempo parou para a turminha e ninguém queria saber das horas. Havia questões bem mais urgentes, como por exemplo, pular de um pé só, feito saci. Outro desafio era balançar alto, beeeem alto, quase encostando a unha do dedão nas nuvens. Hum, que delícia!

Quando um deles se cansava, deixava o corpo cair na grama, agradecida pela troca úmida de suores. Se o amigo prolongava a pausa, não havia cobranças. Bastava estender a mão, que o colega se levantava de um pulo e voltava a brincar. Depois, era a vez de o outro ter folga. O processo tornava a se repetir, de forma natural.

Após fazer o test-drive em cada brinquedo da praça, os meninos iniciaram uma caminhada de prospecção pelo lugar. Quando menos se esperava, estacaram frente à placa da prefeitura, que recomendava exercícios de alongamento para as pernas, braços, pescoço. Eram três séries de 20 segundos cada.

Nesse ponto, a mãe pediu água, literalmente. Propôs dar uma parada na lanchonete e comprar garrafas de água mineral ou de suco. O filho mais velho torceu o nariz. Apontou para a fonte, alguns passos adiante, de onde escorria o mineral líquido e límpido, além de gratuito.

Sem mais nada para fazer, os aventureiros se entregaram aos degraus do anfiteatro da Floriano Peixoto. O intervalo durou meia hora, se tanto. Foi o que bastou para ser invadidos por um terrível tédio. Um deles pisou, de leve, no pé do colega ao lado. Pronto! Estava feito o convite para brincar de “pezinho”, que consiste em dar uma pisada no adversário, sendo que este deve fugir, correndo o máximo possível. Dessa vez a mãe se absteve, por razões óbvias: no dia seguinte, ela ainda precisaria estar apta a andar.

A não-atividade prolongou-se até por volta das 18h, quando ela se lembrou de brincar de ir embora. Não havia mais compromissos nem obrigações. Era só calçar o chinelo e seguir o rumo do carro. O que era doce se acabou. Risos e mais risos. Fim.

 

Sandra Kiefer

Sandra Kiefer

Jornalista

Um comentário em “Eu fico com a leveza da resposta das crianças

  • 17 de janeiro de 2018 em 14:20
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    Obrigada por me despertar um pouco sobre essa leveza querida! Adorei o texto, parabéns!

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