Grafiteiros e pichadores

Arquitetos e designers bem que se esforçam para tornar mais amigável a face dos postos de gasolina. Se repararmos bem, todos ganharam, nos últimos anos, um teto muito alto, de preferência branco, muito branco, e, à noite, são muito bem iluminados. Tudo para dar a ideia de que ali cabe nosso carro com folga, conforto e segurança.

Frentistas – invariavelmente uniformizados nas cores da “bandeira” do distribuidor de combustível ao qual está ligado o posto – também fazem a sua parte. Disciplinados e atenciosos eles se desdobram no atendimento, não importando o horário ou o dia, domingos e feriados incluídos.

Ah, como seria bom se recebêssemos tratamento semelhante em certas repartições públicas em que os funcionários fingem não saber quem lhes paga o salário!

Mas um posto de gasolina, apesar de todo o esforço, continua sendo um posto de gasolina. É realmente muito difícil ir além disso, a menos que seu proprietário tenha alguma ideia inesperada. Foi o que ocorreu em um tradicional posto localizado no estratégico cruzamento da Rua Rio Grande do Norte com a Avenida Getúlio Vargas, na Savassi.

O muro de três metros ou mais de altura e pelo menos uns oito metros de extensão, que separa o posto do prédio vizinho, trocou a descorada tinta de parede e as antigas manchas de óleo por um enorme painel do grafiteiro Ataíde Miranda.

Foi um achado! Valorizadas pelo fundo branco, estão lá centenas de figuras lançadas numa aparente desordem ou falta de compromisso com a proporção entre elas. Em meio a flores sem caule e improváveis corpos de serpentes tem de quase tudo. Desde mulheres barbadas a noivas casadoiras, passando por sereias, padres, corações alados e peixes, além de rostos de homens que parecem autoridades, mas que nada dizem.

Quem quiser pode ficar horas descobrindo detalhes e deixando fluir a sua própria imaginação, já que a do grafiteiro é uma explosão de criatividade e ousadia que nos convida a percorrer as infindáveis alternativas dessa obra de arte.

Saímos dali com o olhar mais atento e o cérebro mais disposto a degustar o que andam grafitando esses talentosos artistas do spray. Em vez de emporcalhar a cidade com pichações de gosto nada duvidoso, seus grafites são obras que surpreendem ora pela beleza ora pelo inesperado da composição.

É o caso do grafiteiro Nilo Zack, que flagrei em plena atividade, quando transformava uma fria porta de aço numa tela colorida e valorizada pelo sorriso de mais um de seus meninos brincando de palhacinho.

Ou dos intrigantes homens carecas de olhar perplexo, que emergem de enormes peixes partidos ao meio com precisão cirúrgica, embora continuem vivos. São obras de um grafiteiro que assina simplesmente Guy. Isso mesmo, o grafiteiro assume claramente a autoria de seu trabalho porque pode se orgulhar dele.

Que diferença do pichador! Este precisa agredir a sociedade, a quem culpa por seu fracasso na vida. Já o grafiteiro é grato pelo dom especial que recebeu e quer reparti-lo com a cidade. Um se mostra, o outro se esconde e alimenta sua vergonhosa covardia.

 

Pedro Lobato

Pedro Lobato

Jornalista

Um comentário em “Grafiteiros e pichadores

  • 31 de março de 2017 em 14:54
    Permalink

    As obras estão lindas, adorei o trabalho do Ataíde. Por uma BH mais colorida e alegre! Amo demais essa cidade!

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *