Grãos de simplicidade

O vídeo mais impactante que já assisti não trazia furacões em atividade, leopardos em uma caçada selvagem ou o flagrante de celebridades namorando em plena praia (se bem que o beijo furtivo entre o Chico e uma desconhecida buliu comigo). Nada disso mexeu tanto com meu interior quanto as imagens de um agricultor executando o seu ofício no campo. Se não me engano, o tal vídeo estava sendo exibido pela TV Brasil que, alguns anos atrás, não se preocupava em disputar pontos no ibope.

Lembro-me de ter ficado hipnotizada frente à tevê, olhando fixamente as cenas, que mostravam um produtor rural arando a terra. Uma a uma, ele depositava no solo as sementes da sua plantação. Na época, o que mais me impressionou foi o desprendimento do homem. Mesmo sabendo que estava sendo filmado, ele se posicionou de costas para o técnico que operava a câmera. Assim começou e assim terminou o documentário, sem mostrar o rosto do protagonista. Pelo que entendi, o homem não ligava em aparecer na telinha. Estava mais preocupado em ensinar o passo a passo do plantio, a idade das mudas, o tempo certo da colheita.

Passados alguns anos, hoje sou capaz de dar razão ao Manuelzão dos escritos de Guimarães Rosa, aos homens sem rosto e sem nome, mas gigantescos em sua simplicidade.

Todo esse preâmbulo serve para ilustrar o conteúdo de uma conversa com meu pai. Normalmente avesso a bater papo mediado por eletrônicos, nesse dia ele tomou o telefone das mãos de mamãe, dizendo que tinha um anúncio a fazer. Na hora, imaginei que alguém da família dele havia morrido ou que uma de minhas irmãs estava grávida.

Não era caso de vida ou de morte. Ao contrário, papai estava entusiasmado para revelar sua mais recente descoberta. De tanto comer melancia e atirar os caroços da varanda, brotara um pé de melancia em seu quintal. A fruta ainda estava pequena, menor que uma laranja. É uma graça de se ver o fruto rajado de verde, que leva cerca de três meses para atingir o tamanho mais conhecido, brotando em meio a folhagens e palmeiras decorativas.

Desta vez, o cotidiano trouxe uma agradável novidade em formato de uma melancia. Perto de completar 69 anos, papai confessou que já tinha visto laranjeiras, limoeiros e abacateiros, mas ainda não tivera a oportunidade de esbarrar em um pé de melancia in loco. E olha que ele aprecia comer, todas as manhãs, fatias e mais fatias daquela polpa vermelha, bem geladinha, recheada de caroços intrometidos.

Com o tempo, papai pegou o hábito de comer melancia, mas sem extrair antes as sementes. Elas vão servir de munição para que ele possa cuspir os caroços, do alto da sacada, formando uma espécie de metralhadora giratória. Herdei dele o hábito de deitar sementes na terra. Mais jovem, saía para fazer cooper e, ao sentir sede, parava no sacolão mais próximo e comprava uma única laranja. Em seguida, descascava a fruta com as mãos, degustava os gomos e atirava os caroços em canteiros ao longo da Avenida Prudente de Morais, acreditando na possibilidade de que as cascas e o bagaço iriam se transformar em adubo natural. Nunca soube se surgiu um pé de laranja de minhas caminhadas.

Já com meu pai foi diferente. Ele se orgulha de ter semeado uma melancia no próprio quintal. Graças à iguaria preferida da Magali, a gulosa personagem da Turma da Mônica, fui obrigada a buscar no YouTube os melhores cuidados com melancias, a pedido de meu pai. Acabei encontrando um vídeo parecido com aquele do homem do campo da TV Brasil. Ao que parece, esses entrevistados da área rural, chamados pejorativamente de matutos, dão aula de sabedoria em relação aos nascidos na cidade grande. Cultivam a simplicidade, artigo cada vez mais raro de se encontrar.

 

Sandra Kiefer

Sandra Kiefer

Jornalista

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