Hora de dar ao povo o que é do povo

 

República: do latim res publica. Coisa do povo. Um conceito um tanto quanto abrangente; uma aplicação totalmente exclusiva. Que coisa é essa, que de muitos, acabou caindo nas mãos de poucos? Que público é esse, que mais parece um simples espectador de circo, aplaudindo vez ou outra as verdadeiras palhaçadas do picadeiro? Ou do Congresso, como preferirem.

A teoria e a prática republicana, sempre foram, digamos, conflituosas. A coisa do povo, segundo Platão, que idealizou a República como o modelo político a ser instaurado na Grécia antiga, deveria ficar apenas a serviço dos sábios. E o povo? Anos, séculos, milênios de distância, e as contradições que regem a nossa política atualmente preservam-se desde os tempos que Sócrates era filósofo, e não jogador de futebol da seleção brasileira.

Mas, chega de Grécia, voltemos ao Brasil. Nossa história republicana começou assim: neste mesmo dia 15 de novembro. Exatos 128 anos atrás. A “República das Espadas”, como define a historiografia atual. Eleições diretas? Nada disso. Até 1894 o Brasil ficou sob a farda dos militares.

Novo século, novos ares. Os anos que se sucederam deram início à chamada República Oligárquica. Bom, você deve estar se perguntando o que é oligarquia. Do mesmo grego de Platão, significa “governo de poucos”. A elite política que hoje domina o nosso país, começava a consolidar seu processo hegemônico. Chega então o ano de 1930, e com ele, uma revolução que renovou as esperanças republicanas de nosso país. Mas, adivinhem só? Nada mais que uma ilusão. De 1937 a 1985 vivemos e sobrevivemos a ditaduras, perseguições, ataques aos nossos direitos mais básicos, como à vida e à liberdade de expressão.

Alívio. O povo brasileiro finalmente recuperou sua coisa de volta. A Nova República começou muito bem: em 1988 promulgamos uma nova Constituição, apelidada de Constituição Cidadã. “Todo poder emana do povo” é a frase que dá início ao texto de nossa Magna Carta. A união nacional em torno de um projeto fielmente republicano prometia anos de estabilidade ao Brasil.

Erramos, mais uma vez. Vivemos hoje o auge da res particular. Um período no qual nós, o verdadeiro povo, vivemos a serviço de uma certa elite política que faz do Brasil o que bem entender. Uma inversão de valores tão grande, que cerca de 94% dos brasileiros não se sentem representados pelos parlamentares eleitos há apenas três anos. O descrédito na política é tamanho que há até mesmo quem pregue a volta do autoritarismo que assolou o Brasil por mais de duas décadas.

Mas que essa tentação não recaia sobre nós. Que a República não seja apenas mais um marco na história de nosso país; é preciso proclamá-la diariamente. Resgatar o conceito de República na sua forma literal. É hora de fortalecer nossas instituições. É hora de cobrar dos nossos políticos. É, por fim, hora de dar ao povo o que é do povo.


Pedro Botelho, 17 anos, é estudante de Belo Horizonte e pretende cursar Direito

 

Um comentário em “Hora de dar ao povo o que é do povo

  • 14 de novembro de 2017 em 18:08
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    Lúcido, direto e essencial ao debate sobre os rumos do nosso país. Parabéns pelo belo texto. Desejo, Pedro, grande sucesso em sua carreira. Abraço. Viva a República!

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