Ianques, welcome!

Eles estão entre nós há décadas, fazendo o bem. São voluntários e filantropos americanos que deixaram o conforto de seus lares para se dedicar à saúde, à educação e ao empreendedorismo de milhares de mineiros do interior e das áreas carentes de Belo Horizonte.

Infelizmente a histórica birra latino-americana com o Tio Sam impediu análises neutras e profundas do papel desempenhado pelas bem-sucedidas parcerias beneficentes entre Minas e Estados Unidos.

Testemunhei desde menino situações nas quais os enviados da nação mais rica do planeta fizeram a diferença, seguindo a máxima de ensinar a pescar em vez de simplesmente dar o peixe.

Presenciei ainda figuras estrangeiras de clubes de serviços, de ONGs e de agências governamentais promovendo aqui sinceras e duradouras amizades. Meus familiares e eu somos uma prova disso.

Em 1964 se hospedaram na pensão de Tia Calina, em Curvelo, duas americanas e um americano, mandados por Washington para apoiar a associação local de jovens rurais chamada de Clube 4-S (Saber, Sentir, Saúde e Servir), surgida nos anos 1950 sob inspiração ianque.

Sua tarefa era ensinar cidadãos pobres e sem instrução a cuidar de sua higiene e a incrementar os negócios de sua propriedade rural. Ficaram quatro anos seguidos na cidade colhendo sucessos e o afeto do povo.

Com pinta de galã de Hollywood, o agrônomo estadunidense arrancava suspiros das moças da alta roda. Mas acabou sendo conquistado pela doméstica Ritinha, a quem apresentou a sala de cinema.

Desse trio de visitantes engajados, Ruth foi quem mais se aproximou de nós. Ela foi embora triste por deixar para trás a sua família brasileira, como se referia ao pessoal de minha casa. Nosso contato passou a ser postal, feito via envelopes com listras verdes e amarelas e inscrição “par avion”.

Ruth só voltaria a Curvelo mais uma vez, para passar o Natal de 1971 com os que a tinham como amiga, irmã e tia. Por volta de 1978 a correspondência cessou, quando nossa americana preferida rumou para outras missões, no Japão e no México.

Faz poucas semanas que a reencontrei via Facebook. Aposentada, ela continua muito ativa, agora em sua agradável Louisiana. Oh, Lord! São quase 40 anos de conversa para colocar em dia.

Os intercambistas do Rotary e do Lions, a maior parte deles nascida nos EUA, há muito tempo brindam o cotidiano urbano dos curvelanos com episódios variados.

Nos anos 1990, por exemplo, fui instado a ensinar passos de forró para Sarah, a mãe de uma garota de dois metros de altura vinda do distante e gelado Alaska. Aquela senhora expansiva, fisicamente parecida com a atriz brasileira Wilza Carla, adorou a nossa festa junina.

Para ela, o arrasta pé democrático na Praça Benedito Valadares remetia à dança e à música tcheca polka. Seus cabelos negros e cacheados e as suas longas unhas vermelhas até hoje rendem causos. No sertão, a filha dela não tinha, lamentavelmente, com quem competir na quadra de basquete.

As colunas sociais de meu município sempre registraram a chegada nos lares de padrinhos leões e rotarianos de garotos e garotas de fora, tanto os daqui lá no estrangeiro quanto os de lá aqui.

Por fim, e não menos importante, recordo o momento insólito de um luxuoso ônibus de turismo subindo na principal via do Aglomerado Santa Lúcia, na capital mineira, em 1988. Dele saíram duas dúzias de americanos, membros sêniores da W.K. Kellogg Foundation.

De óculos escuros e roupas de veraneio, o grupo teve como anfitrião o reitor da UFMG Cid Veloso, que os apresentou projetos de extensão sob os auspícios técnicos e financeiros dos visitantes – uma creche e uma moderna clínica odontológica para aquela comunidade pobre e numerosa.

Eu era estagiário da Escola de Saúde (Esmig) e atuava em outros programas sociais na barragem. Acompanhei o cortejo daquela gente grandalhona morro acima, abanando seus leques e fazendo fotos com suas sofisticadas máquinas.

Mas o que mais chamou minha atenção foi o Larry, o único afro-americano da comitiva, muito parecido com o cantor Barry White. Ele procurou conversar com os moradores que saiam de suas casas humildes em plena tarde de dia útil, para ver a estrangeirada passar.

Servi de intérprete do figuraça de boné e bermuda, que entabulou calorosos e inesperados papos com os favelados. Uma benzedeira fez uma reza forte com a mão sobre a cabeça dele.

Constrangido, me perguntou se aquilo era vodu ou magia negra. Esclareci que ela estava só abençoando o benfeitor, em sinal de gratidão. Ficou orgulhoso e aliviado.

Larry também brincou com um menino de cinco anos que tinha como bicho de estimação uma leitoa gigante, que gostava de ficar fuçando o lixo. E a conexão mais fascinante que ele estabeleceu foi com um adolescente do funk, de camiseta da NBA coberta de colares.

Mesmo sem conhecer a língua um do outro, ficaram ali uma meia hora trocando figurinhas sobre a american black music, na porta de um inferninho que só abria depois da meia-noite.

Em tempos de xenofobia Trump, quero louvar os homens e as mulheres da América que nos estenderam a mão sem nada pedir em troca. São amigos para se guardar no peito. Uai, not?

 

Sílvio Ribas

Sílvio Ribas

Jornalista

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