Inventário da caixa de lembranças

Após mais de duas décadas, decidi abrir minha caixa de lembranças, com objetos em hibernação desde 1994. Ali estavam coisinhas variadas, todas com a única função de rememorar. Desde um par de portas vale-transporte até meus dois primeiros relógios de pulso, tudo parecia ter saído de uma cápsula do tempo. Bonequinhos de Batman & Robin, da Gulliver, os mesmos que enfeitaram o bolo do meu nono aniversário, estavam no baú de papelão para contar a sua história.

Esses bravos heróis de borracha escaparam feridos das dentadas de Kojak, o cão de dona Arminda Marques. O arquivo do museu pessoal guardava mais duplas dinâmicas, em apontadores de lápis, em frascos de guloseima e em miniaturas.

Sem qualquer metodologia, coloquei-me a inventariar o resto da “mala de memórias”, como sugeria “Time after Time”, canção de Cyndi Lauper. Souvenires de viagens e do centenário de BH, santinhos de campanha eleitoral, presentinhos baratos, medalhas de honra ao mérito (concurso de redação e futsal dos calouros da PUC Minas) e itens saudosos da minha infância primeira, como o mini boneco bebê e a zebrinha que se dobra toda sobre o pedestal.

Tinha lá também bibelôs variados, como um tatuzinho de pedra sabão, brindes corporativos, canetas, óculos 3D para cinema e aqueles clássicos com nariz e bigode postiços. Reencontrei nos badulaques a dentadura plástica de Drácula, chaves de todo tipo e relíquias de santos italianos e de líderes soviéticos. Artefatos do folclore açoriano de Floripa se misturavam com duas fotos 3 por 4 e medalhinhas de minhas tias-avós.

A alça para segurar canecão de cerveja da Oktoberfest blumenauense estava junto com tampinhas de garrafa promocionais, uma rolha de Miolo Seleção, uma tampa de geléia francesa e uma preservada garrafa-anã de Coca-Cola encontrada debaixo do piso de minha casa durante uma reforma. Mais no fundo, havia um brejeiro canequinho de lata esmaltada, dados para jogar Ludo e dois pares de lentes de contato de silicone esverdeado.

Bandeirinhas em papel brilhoso do Brasil e da Itália com seu respectivo suporte comum corriam o risco de se amassar, bem como uma das oito figuras do móbile de borboletas azuis que fiz no ensino fundamental. Botons do Galo e do Partidão estavam num copo descartável com outros licenciamentos do Atlético e uma penca de chaveirinhos.

Um duende de gesso barbudo (e intrometido) fazia companhia a animais de origami by Alexandre Ferrari e a uma espumosa cabeça verde de ET com função anti-stress, para amassar na mão.

Ao fim da lista consta um pires de saquê, três panfletos da CUT, cristais decorativos, dúzias de moedas estrangeiras e de datas comemorativas, pedras nada preciosas, um Pinóquio de madeira articulado made in Italy, enfeites natalinos e dois dispositivos sonoros a bateria que tocavam jingle bell se acionados. Da caixa, acordaram saudades de tempos inocentes, de sonhos militantes e de paixões colecionáveis.

Sílvio Ribas

Sílvio Ribas

Jornalista

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *